Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu

Era como um ritual. Cada espirro uma explosão. ATCHIIIIIIIEEEM. Da cozinha, depois dum pulo de dois metros, vinha a voz da mulher, num berro: ISSO, MOSTRA PRA CIDADE INTEIRA O QUE VOCÊ FAZ DE MELHOR. Ele ria. Tirando vez ou outra um prato quebrado uma panela derrubada, ela sabia que tentar matá-lo só o faria rir ainda mais. Velho tonto, justificava às visitas, que também tinham seu coração testado mas acabavam por se entregar ao riso largo do velho no outro cômodo.

Noutro dia, juntamos umas fotos e Luzia as grudou numa pequena lousa de madeira. Fotos de família, todos ao redor da mesa, irmãos, sobrinhos, netos, genro, sua única filha e a mulher duma vida inteira, e ele próprio, com mais cabelos do que se lembrava ter e sorrindo. Mostrou ao pai e viu uma lágrima escorrer. Também chorou mas não podia chorar. Isso o enraivecia. Ele não reconhecia ninguém que não fosse Rosa. Por vezes nem isso. Passava os dedos nas fotos, olhava ao redor, tentava entender o que queriam ali tantas pessoas estranhas, o que elas faziam sorrindo naquelas lembranças de Natal, aniversários, churrascos sem motivo et cetera, tendo ao centro sua própria imagem mais moço, abraçado na mulher que fazia sua cabeça explodir. Qual seria sua batalha: lutava pra lembrar ou pra não esquecer? Uma enfermeira, nesse mesmo dia, contou que certa feita deixou escapar um pequeno espirro, quase um sussurro de tão reprimido, e quando reparou viu seu Valter disfarçando um riso com as mãos na boca. Perguntou o que se passava e recebeu a mesma resposta que todos: vai cuidar da tua vida.

Nunca tiveram carro. Rosa não aceitava máquinas travando a passagem pela casa. Recusava tal conforto sob o pretexto, se é que fosse um pretexto, de usar o dinheiro pra botar Luzinha em aulas de inglês, balé, piano ou o que quisesse a menina. Sempre que se via debaixo de temporal no caminho que fazia a pé do trabalho até em casa, jurava que ia chegar e começar uma guerra sem escrúpulos: teremos aqui um carro e você pode pular por cima, passar por baixo ou simplesmente pular da ponte que pouco me importa. Mas era só chegar que o plano ia pro diabo. Mal enfiava a cara na porta, via esposa e filha se rindo de engasgar com sua aparência de poodle molhado, se tremendo todo, e ainda com Rosa tendo a desfaçatez de alertá-lo: cuidado que vem chuva aí. Vai tomar no cu, resmungava, puto, a caminho do banho, levando consigo as gargalhadas que o seguiam.

Tempos atrás, a médica passou a permitir que a família, a cada vinte dias e na companhia de uma enfermeira, levasse Valter a passear. O que se mostrou duma complicação atroz. Mesmo muito magro, com problemas que causavam dores de morte nas costas e joelhos e que dificultavam o simples se manter em pé, Luzia fracassava no desespero de tentar enfiar o pai num carro. Ele se debatia, gritava que não, não, carro não. Só sairia se fosse a pé. Mas a pé o senhor não pode, papai, quer dizer, senhor Valter – corrigiu dia desses, ao perceber o olhar assustado do velho, estudando seu rosto. Terminavam por passar a tarde como todas as outras, em silêncio, observando de dentro do portão as crianças que corriam pela praça de frente a clínica. 

Ontem tentamos, pela milésima vez, levá-lo a qualquer lugar. Vamos, Valtão, meu camarada, hoje é dia de Corinthians. Ele me olhou e sorriu, sempre sorri vagamente ao ouvir a palavra Corinthians. Depois tornou a olhar pra rua e sua expressão se fechou.

Sempre que chove bastante, Valter chora. Talvez sinta o dilúvio que o afundara a perda da mulher. A enfermeira confidencia que ele costuma abrir a janela e enfiar a mão pra fora. Fica ali, sentindo a chuva e olhando as árvores e pessoas que passam feito maratonistas.

Quando chegamos, hoje mais cedo, estava assim, com o braço esquerdo na chuva e a vista longe, pra além do temporal. Luzia tirou dos ombros a capa que fracassou em protegê-la da chuva e olhou direto pro pai, que gargalhava e apontava pra filha com o braço molhado: vocês suam bastante. Ela deu as costas, segurando as lágrimas, mas fingiu bem a voz: alguém levantou engraçadinho hoje. E no mesmo tom ameno de quem conta uma piada, ainda de costas pro pai, anunciou que ia ao banheiro. Valter a observou sair e fechar a porta, esperou o silêncio se unir ao barulho da chuva e mirou em mim, num átimo de lucidez: tá igualzinha a mãe. E se voltou pra janela.

2 comentários em “Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu

  1. Há tanto em tão pouco de tão poucas linhas! É rico, seu estilo e sensibilidade, observação e força das palavras, a narrativa inconfundível. Não há indiferença ao ler, há confluência de emoções divergentes. Que coisa mais linda.

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