A Nicarágua é um poema de Vinicius de Moraes – tão belo quanto triste

“Nas catacumbas

pelas tardes,

quando há menos trabalho

pinto nas paredes das catacumbas

a imagem dos Santos

dos Santos que morreram matando a fome

e pela manhã imito os Santos

agora quero falar dos Santos.”


Filho de agricultor com professora, José Leonel Rugama nasceu em Vale de Matapalos, Estelí, na Nicarágua, em março de mil novecentos e quarenta e nove. Logo cedo, aos onze anos, escolheu o caminho do sacerdócio. Entrou pro seminário mas terminou por abandoná-lo pouco antes de se ver oficialmente padre. Em meados de 1967, estabelece seu primeiro contato com a Frente Sandinista de Libertação Nacional, FSLN. Parte então pra cidade de León, onde se matricula na Universidade Nacional Autônoma da Nicarágua. Leitor compulsivo, lia Sartre, Camus e Victor Hugo, mas também lia coisas como A arte de vender de porta em porta, Como construir um corpo atlético, Dez passos para um muro perfeito, Eis que nasce o agricultor et cetera. Ótimo com números, armado com com seus óculos enormes e desajustados e vestindo sempre a mesma camisa, passava tardes e dias inteiros ensinando, com paciência de Jó, matemática a crianças pobres. Na aparência, nada tinha dos barbudinhos cubanos – mais parecia um jovem abandonado a espera dum Charles Manson -, mas já vivia entre as guerrilhas nas montanhas, em busca da justiça que somente o uso da violência pode conseguir, em se tratando de ditaduras.

Viver como os Santos. A vida nas catacumbas é uma vida de renúncia total, não só à família namoro estudos e tudo mais, como também aos bens materiais e qualquer ambição de tê-los. A obrigação dos vivos é ajustar sua conduta à dos mortos, porque só estão vivos graças àqueles que assumiram a morte como destino. A clássica fusão revolucionária entre marxismo e cristianismo, que faz da morte não um fim, mas um começo – um começo praqueles que, vivos, se ressentem por estarem a tomar o lugar dos que caíram. Se trata dum novo Santoral. Entre os Santos a se imitar estão Augusto César Sandino, Rigoberto López Pérez, Carlos Fonseca, Silvio Mayorga, Santos López, Germán Pomares.

Poeta guerrilheiro, Leonel se refugiava, junto de dois companheiros, numa casinha de segurança da FSLN, era janeiro de 1970, quando a pequena casa azul clara se viu cercada pelo primeiro contingente de agentes de segurança. O sol batia no meio-dia. Soldados do Exército em colunas de quatro, com enormes tanques em frente cada coluna. Caminhões em cada canto dos quarteirões que rodeavam a casa, e deles desciam mais e mais soldados. Lá no alto, aviões ziguezagueavam a espera da ordem pra descer rasgando tudo. Festa pronta. Fogo. Nem um dedinho de prosa, nada. Simplesmente assim: fogo. Os canhões dos tanques abriam rombos tão grandes nas paredes que quem ouvia os estrondos a dezenas, talvez centenas de quilômetros, julgava se tratar do fim do mundo. Fuzis e metralhadoras gritavam sem o menor remorso. A casinha, tadinha, por pouco não levantou e foi-se embora. É um mistério que tenha permanecido ali. Enquanto isso, lá da casa os tiros eram tristes de tão pouquinhos. Após horas de ataque incessante, enfim se fez curto silêncio. (Muitas pessoas observavam ao longe, perplexas, alarmadas). O Comandante se lembrou de dar bom dia. Através dum megafone: rendição ou morte. Como é irônica a puta da vida – a história se faz é nos detalhes. Eis que surge um insolente Leonel na pequena janela da frente, talvez um leve riso de canto no rosto, e sua voz se faz ouvir num grito que a história há de levar abraçado a ela:

¡QUE SE RINDA TU MADRE!


José Leonel Rugama, Maurício Hernández Baldizón e Róger Núñez Dávila, eis os eternos.


*


Uma pena o que segue acontecendo com a Nicarágua nas mãos de Ortega (que em nada faz sombra ao que foi um dia) e sua mulher, Rosario Murillo. Quantas mortes em vão – mas minha opinião não importa.

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