Vida, minha vida, olha o que é que eu fiz

Quando abri a segunda garrafa de Velho Barreiro, ainda estava em casa, tomando no quintal, sentado numa cadeirinha de área azul. Já se iam umas duas da manhã, e eu nunca fui muito de beber sozinho, e cá entre nós não tenho vocação pra Chinaski, essa coisa de esperar o dia nascer pra sair pra comprar mais bebida não é comigo, e nem pra escrever bêbado eu presto, odeio ver o sol nascer, sei de toda a sua beleza e blá blá blá mas ao menos que estejamos acampando numa montanha vendo o sol nascer de perto com um baseado entre os dedos e quem quer que você ame do lado, não vejo onde vale a pena trocar uma noite de sono por um dia de merda. Todos os dias são de merda, no fim. E foi um pouco por isso que estava me enfiando na segunda garrafa. Tem dias que a puta da vida te pega dum jeito e te dá tanto na cara que você pensa tudo bem, sua desgraçada, eu desisto. Mas não sou dos que se matam. Se fosse já teria me mandado. Mais dor nunca é remédio pra uma vida ruim. Eu sou meio brocha mesmo. Brocha e meio besta, a simples ideia de deixar de ter um nome concreto (por menos que isso valha) pra terminar um jovem na zona sul que tirou a própria vida na madrugada desta quarta-feira já me faz pensar duas vezes. Se existe vida após a morte, não quero passar ela nas estatísticas. O negócio é se matar aos poucos. Imperceptível até que te arranquem uma perna e todos os seus cigarros. Pra tomar só essa primeira garrafa, aliás, fumei uns três maços. Um cigarro a cada gole. Nem Cristo consegue beber cachaça sem um cigarrinho. Mas nessa segunda garrafa dei um trago apenas e deixei ela de lado. Já não estava em mim e resolvi sair pra andar. Geralmente quando bebo assim de esquecer e saio pra andar, simplesmente fico andando ouvindo música no fone até dar umas quatro ou cinco da manhã e voltar pra casa, odeio ver o sol nascer. Mas dessa vez decidi procurar o amor da minha vida. Foi simples assim: vou encontrar o amor da minha vida. E toquei a primeira campainha. Já tinha caminhado uns um dois quilômetros, estava num daqueles bairros clássicos de classe média. Com casas grandes e quase iguais uma do lado da outra e portões também enormes e todo fechados. E interfone. Toquei por uns cinco minutos a primeira, até que uma voz de velho, sonolenta e um tantinho alterada, surgiu: A LÔ!!!!! Boa noite, tentei dizer cambaleando pra lá e pra cá e falando tão enrolado quanto alto, estou procurando o amor da minha vida mas sabe como é, nem sempre a gente acerta na primeira, passar bem. E saí andando. Tenho certeza que foi aquele velho quem chamou a policia. Toquei nas próximas três ou quatro casas até conseguir outra chance. Dessa vez era mulher. Quatro quatro e pouco, imagino eu. Oi, disse uma voz de sono. Não consegui ligar aquela voz a uma moça ou senhora, mas destino é destino. Fui em frente. Boa noite, moça, eu tô aqui porque senti o amor me chamar, mas bebi um pouco demais e minhas anteninhas entortaram. Pausa pra vomitar. Vomitei no portão dela. Como um cachorro que mija nos postes. Senti o amor. Não sei se ela ainda me escutava, mas continuei: você poderia sair aqui pra me dar uma olhada e dizer se me ama, fazendo favor? Se puder trazer um pano de chão e um rodo também, eles podem ser necessários. Silêncio. Ouvi um portão abrir. PRAMM. Sei lá de qual casa, só corri. Corri até o fim da rua, virei a esquina, esqueci do que tinha feito e saí andando como se nada tivesse acontecido. Lembrei dum posto de gasolina com conveniência 24 horas. Uma cerveja só não faz mal, pensei. Estava indo pra lá quando a polícia brotou do meu lado. Desceram os dois. Eu não conseguia ficar parado, mas fiz o melhor que pude. Botei as mãos na cabeça e um deles começou, todo educado: MAS QUE PORRA VOCÊ TÁ FAZENDO APERTANDO CAMPAINHA POR AÍ, HEIM, Ô SEU MERDA? Tentei negar: fui e-eu na-não, eu só tô, é, in do ali buscar uma cer ve ja. ÓH, VOU TE FALAR UMA VEZ SÓ, NÓS TAMOS ATRÁS DE VOCÊ, SE DER TRABALHO DE NOVO NÃO VAI TER CARINHO. Empurrou minha cabeça em direção ao lado oposto pro qual eu estava indo, só permaneci de pé por um milagre, catei cavaco quase o quarteirão todo. Virei a esquina pra dar a volta no quarteirão e ir buscar uma cerveja. Comprei duas e refiz o caminho tomando uma e carregando a outra na sacola. Passei pelo meu vômito. Aquilo me fez um bem danado, vomitar. Deve ter dado um puta trabalhão pra limpar aquela coisa do portão, do chão parede calçada tudo. Eu praticamente explodi na frente da casa da coitada. Cheguei em casa já passava das cinco, o horário dos velhos morrerem, o lusco-fusco. Tinha tomado as duas cervejas no caminho e o dia já ia nascendo aos pouquinhos. Me lembrei da garrafa cheia de Velho Barreiro me esperando ao lado da minha cadeira. Me servi uma dose com café, acendi um cigarro e fiquei assistindo o dia amanhecer. Mais um dia perdido.

9 comentários em “Vida, minha vida, olha o que é que eu fiz

  1. Às vezes beber é só o que resta por aqui também. É difícil ver sentido em qualquer dia. Somos muitos no mesmo barco, mas, ainda assim, se for possível ajudar de alguma forma, é só chamar.

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  2. O título me chamou atenção, primeiro verso da música “Vida” do Chico Buarque (que alias é a minha preferida dele). Ao ler todo o texto tive um mix de sentimentos (por que fazer isso contigo mesmo?), mas cada um se expressa da forma como lhe convém. Lhe desejo melhor sorte e prudência, pois tocar campainha na madrugada não é algo legal a se fazer.

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