Tem mais samba nas mãos do que nos olhos

Jesus. Vem aqui, Jesus. Jesus o pai de Geisiele. Eu gritava. Acorda, Jesus. Vem aqui fora deixar eu namorar tua filha. Eu só quero uma. Jesus. De repente sai o vizinho com uma peixeira na mão. Continua gritando agora aí, ô filho da puta. Jesus não me salvou. Nem deixou eu namorar Geise. Tive de subir desesperado, correndo feito um Bolt sedentário e bêbado, em zigue-zague, três da manhã, e olha que a subida da casa de Jesus é daquelas que a gente tem de escalar. O rapaz da peixeira ainda me arremessou uma pedra, que senti tocar meu tênis. Virei a esquina com o coração pulando da boca, ofegante, respirando alto o peito doendo. Acendi um cigarro. Busquei num bar do outro lado da rua uma última dose pra esquecer da vida. Meus últimos dois reais. Bebi num gole e saí cambaleando. Acendi outro cigarro. Sentei no banco da praça que fica a um quarteirão de casa pra escrever um poema onde eu salvaria Geise do dragão no quarto mais alto do castelo e depois a perderia pra Jesus numa aposta de truco. Fumei o último cigarro que restou vivo. Guardei o maço vazio no bolso e acordei sete da manhã, assustado, a cabeça explodindo, e fui pra casa beber água.

Horas antes, deixei que me convencessem a ir assistir o desfile das escolas na avenida. E o carnaval de Marília se resume basicamente a um quarteirão que a prefeitura fecha, sim, um quarteirão e nada mais, coisa de dez minutos pra cada escola. Menos mal que ninguém conta pontos então a competitividade é zero. Alguns batuqueiros entram primeiro batucando seus tambores em compasso com uma voz que sai não sei de onde, procurei mas não achei o cantor, provável que estivesse numa rodinha de gente batendo palmas pertinho dos rapazes que esperavam o momento certo pra começar a empurrar um pequeno carro alegórico, um grupo de passistas com uniformes iguais samba logo atrás dos batuqueiros juntos da rainha ou madrinha de bateria, e pra fechar passa o carro alegórico com a imagem de algum animal na frente ou placa ou qualquer coisa carregando o nome da escola, e alguns degraus atrás onde ficam umas moças de bunda grande rebolando pro público. Entre a imagem do bicho na frente e as dançarinas no fundo, mais umas pessoas seminuas festejando a grande distância de uma quadra. E não fizeram feio, o ensaio estava em dia. As mulheres lindas, todas brilhando com seus enfeites na cabeça e saltos de um quilômetro de altura. O problema era só a escassez de grana e a falta de boa vontade da prefeitura. Fui fantasiado de Misfits. Só a camiseta, aliás. Chegamos lá meu amigo e eu a festa já se encaminhava da metade pro fim, igualzinho nosso litro de vodca, mas ainda faltavam umas boas escolas pra desfilar. E não tinha assim tanta gente: sobrava espaço pra andar. E andamos. Duma esquina à outra do quarteirão, indo e voltando, cumprimentando passistas e procurando conhecidos. E sambando. Anos atrás tive de aprender a sambar pruma festa de debutante duma amiga da escola. Aprendi, nunca esqueci, e bêbado viro a própria Globeleza, sambo em qualquer canto. Sóbrio finjo que não sei. Ah, isso é muito difícil, deixa pra lá. Eu nego o samba como Pedro negou Cristo. E como Cristo me negou sua Geise. Mas sambei. E ensinei meu amigo a sambar. De Misfits e tudo. Glenn Danzig dormiria orgulhoso. A noite estava sensacional, toda estrelada, sem nuvens nem frio de rachar ou calor de suar parado. A gente era pouca, o caminho era curto, o microfone horrível, a caixa de som também não ajudava mas tudo bem, o caminho curto virou uma pista de vôo nas mãos dos rapazes que empurravam o carro alegórico no estilo um passo pra frente três pra trás, nos pés das bailarinas veio junto toda a Sapucaí, as pessoas ao redor assistiam a tudo apaixonados, e fora uma menina que passou mal e teve de ser carregada pelos colegas da bateria, a alegria era tanta que pensei bom, que bom seria ver Geise aqui. Quando a última escola terminou seu passeio fechando o desfile, a grande Unidos do Nova Marília, nada nos restou a não ser uns goles de cachaça numa barraquinha dum tiozinho japonês que também vendia cachorro quente, e o caminho de volta. Nada restou de mim também, que já não sabia bem onde estava. É como Chico ensinou, se todo mundo sambasse seria tão fácil viver.

Faltou samba em Jesus.

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