Um São Sebastião meio niilista

Já contei aqui dum amigo que há tempos resolveu arriscar meter a cara no mundo pra ver de perto se ele é grande assim mesmo. Pois bem. Quando resolveu sumir, só o que chegou a mim foi que sem mais nem menos o menino enfiou na cabeça que tinha de estar na Bolívia, subiu num ônibus e foi parar em Minas. Por um tempo deu de passear pelo Brasil conhecendo praias e praças, apanhando de polícia e aguentando gente infeliz que tenta se sentir melhor dando cinco centavos pra humilhar mendigo, mas as calçadas onde mais dormiu foram as de BH. Passou quase dois anos dormindo na rua e vivendo de malabares. E desenhando. Principalmente desenhando. Ivan, como nasceu, desenha quadrinhos no estilo mangá japonês, junta no malabares o dinheiro da edição das páginas, que ele mesmo edita em lan houses, tira uma porrada de cópias, grampeia uma folha na outra e sua última revistinha sobre o rapaz morto que dá um jeito de enganar o diabo, foge do inferno pelo cu do mundo e dá no Rio de Janeiro, você pode comprar a cinco reais direto na fonte, ou pelas ruas de Marília vez em quando. Atualmente está trabalhando numa obra que eu diria prima, uma comédia sobre heróis de outra galáxia que caem na Terra, salvam a tudo e a todos, decepam tudo quanto foi cabeça de vilão e quando o tédio se torna rotina, acabam seduzidos pelas drogas (como em seus planetas de origem ainda não inventaram o crack, logo não desenvolveram qualquer defesa), demoram a se dar conta desse amor perigoso e terminam todos na sarjeta, o Super-Lata, o Homem-Pinga, o que se vicia em cocaína cujo nome não vou lembrar agora e toda a trupe: é aí que a história começa. Detalhe interessante: em algum momento da trama, um experimenta a droga do outro e simplesmente odeiam, o que dá a marca individual de cada um. E se nisso parece haver qualquer spoiler, me dê uma chance, leve isso mais como um trailer. Suas histórias de viagem tenho esperança de que um dia ele resolva enfiá-las num livro. Não todas. Existem histórias pra se botar em páginas e histórias que devem permanecer na mesa do bar. Mas ele não quer saber disso. Por mais que você encha o saco, não adianta, ele só responde que não quer escrever nada. Eu fico com a cabeça batucando pra contar, confesso, porém, não posso ficar falando da vida de outrem. Imagine dois volumes da vida de Jô Soares apenas com histórias descritas em crônicas jornais afora. Muito provavelmente não teríamos dois volumes de Jô Soares. Mas não era bem isso o que eu estava pensando. Nem sentido faz. O que eu decidi não foi que deveria falar menos dos outros, o próprio Jô Soares fala muito dos outros, eu faço o tempo todo, mas sim que melhor seria deixar de cagar regras, não tentar convencer em vez de fazer rir. Falha no engano. Cada um diz o que quiser, de quem bem entender, e nada como uma biografia não autorizada pra gente conhecer um pouco das histórias de bar de quem não quer contar – com exceção de algumas como uma dos Trapalhões que ouvi no Pânico outro dia, com o autor deixando nítido que escreveu o livro pra derrubar reputações e nada mais. Já estou eu cagando regras. Talvez eu devesse começar cada texto parafraseando FHC: esqueçam o que escrevi. Mas de um ponto a outro posso conseguir me contradizer e ficar colando a mesma frase antes de cada parágrafo, embora a ideia seja boa (porque no fundo a crônica é só isso mesmo: um riso de leve e esquecer), na prática ninguém vai ler. Talvez, outro talvez, o melhor seja deixar o aviso pronto no pé de cada página, em letrinhas miúdas, como num panfleto de supermercado que garante as promoções até dia tal ou enquanto durarem os estoques, e invalidar na raíz toda bobagem dita do título pra baixo.

Desde que Ivan voltou, com seu niilismo um tanto quanto exótico, que mais parece uma mistura de fuga de lugar nenhum com falta de pra onde fugir, um tantinho de depressão e muita, mas muita mesmo, vê-se de longe, força de vontade pra não desistir da vida (graças ao que pode ser seu único [ou último] apoio na realidade: a arte), já sabíamos que não aguentaria ficar por tanto tempo. Como ele mesmo disse dia desses: ou vou viver de quadrinhos ou vou virar vagabundo, mas vagabundo eu já sou, falta 50%.

Ivan aprendeu a voar, e por favor: esqueçam o que escrevi.

8 comentários em “Um São Sebastião meio niilista

  1. Uma obra prima, como disse um pouco mais atrás a minha amiga Mariana Gouveia, fiquei pegado na sua escrita desenvolta, o Ivan aprendeu a voar e eu estou seguindo vc, esqueça o que escrevi , eu sei que tenho de falar menos de mim e mais dos outros …continue vc a falar de si e de todas as suas figuras animadas, gostei mesmoooooo muito…

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