Tutorial pra matar a avó e dormir semitranquilo

Quando você sente um certo amor, e falo no amor como doença, pelas palavras, começar um texto é, na melhor das hipóteses, impossível. Você pode ter a melhor ideia duma vida, um estalo divino, pouco importa, sem um começo decente, que pegue o leitor pela mão, suavemente, como uma mãe, e o envolva de boca tapada olhos arregalados e mãos atadas na história que se pretende contar, algo assim feito um sequestro mesmo, pra daí enchê-lo de tabefes, beijos, fazer o infeliz passar raiva, ódio puro e simples, sentir esperança, chorar rir gargalhar, se desesperar e o que mais sua cabeça maluca conseguir pensar, sem alternativa que não seguir até o fim, pode jogar essa ideia no lixo, pois a qualquer momento, assim que perceber que suas armas não servem pra nada, nem um mísero arranhão podem causar, sua vítima, ou leitor, vai se encher de tédio, levantar e sair andando – e você ainda pode se encrencar por ficar mexendo com quem está quieto. Pois bem, tudo isso pra dizer que não sei como contar que minha avó sofreu um AVC. Numa madrugada dessas. Simples assim. A mesma avó que disse de minha mãe coisas como você é um câncer na minha vida, e ainda fez questão de inventar pro meu irmão que mamãe o jogou no chão quando bebê, bêbada e brava com seja lá o que for. Brigas de sogra e nora. Mas também a mesma que mora dois quarteirões pra baixo de casa e que eu não visito tem mais de dez anos, pelo menos – e outra, na raiva a gente diz coisas que até o Bolsonaro duvida. Quando digo assim, logo você pode ligar os pontos e raciocinar que não a visito por rancor e nada mais. E de quebra ainda não vai fazer perguntas pra não se passar por indelicado frente a dor alheia. É o que quero que as pessoas pensem, e por isso sempre calo nesse exato ponto: vovó odiava mamãe e não a vejo mais. Não costumo dizer vovó odiava mamãe e por isso não a vejo mais. Apenas cito os fatos e cada um que os interprete à vontade. Quanto ao limbo que mora nessa frase, por que não a vejo mais, são só detalhes, cruéis e infantis detalhes. Quando pequeno, lá pelos onze doze anos, adquiri um de meus primeiros vícios, depois da chupeta, mamadeira, cama da mãe et cetera: lan house. E não era por Orkut MSN ou qualquer rede, minha paixão estava no Winning Eleven 9 – que viria a ficar conhecido como PES 5. A hora custava um e cinquenta, o que era pouquíssimo pro José Mourinho que baixava em mim na Master Liga. Dois ou três jogos depois, por conta da escalação, definições técnicas e táticas, Petr Cech no gol, no ataque sempre Henry, Nedved no meio também era indispensável e outras bobagens das quais não lembro, a tela escurecia me enfiando goela abaixo o fim – muitas vezes antes de conseguir (ou me lembrar de) salvar o jogo. Outro indício da magnitude do vício é esse, eu já tinha um computador marcado, como um mascote, com meus jogadores e planos salvos, tendo, por vezes, de esperar quase uma hora inteira na lan house vazia até desocuparem meu lugarzinho. Mas é como diz Freud: a culpa é sempre dos pais. Minha mãe, de maneira quase que religiosa, me deixava diariamente, antes de sair pro trabalho cedinho, um e cinquenta contadinhos em cima da cômoda. E lá ia eu, depois do café da manhã, como uma flecha com destino certo, passar uma hora jogando. E a vida seguiu, eram tempos de commodities com preços lá no céu, mensalão não fazia nem cócegas no futuro certo do país – o que é sempre uma solução pra quem tem muito dinheiro e uma vontade imensa de mandar em todo mundo. Pãozinho a dez vinte centavos – até um gênio resolver que o melhor seria vendê-lo por quilo, e hoje pagamos um real cada pão. Doritos, que me lembra a Geise por ser pequeno igual e não ter o mesmo perfume (o que é uma pena pro salgadinho), um dois reais. Um realzinho depois do futebol já comprava a felicidade: salgadinho (daqueles de isopor) + tubaína no saquinho. Até karatê eu praticava. Cristo ainda não dava decolando em capas, mas já ia tão alto quanto a Benedita da Silva a visitar igrejas pelo mundo com dinheiro público – dinheiro que não faria falta, repito, pois enfim chegara a nossa vez, o país do futuro. Tudo conspirava a meu favor, mas de repente veio a rasteira: a hora na lan house subiu, não como Cristo, mas chegou a dois reais. Tentei repassar em casa, mas não soube negociar e terminei com os mesmos um e cinquenta ante os dois reais necessários. Então lembrei de vovó, nessa época ainda a via com alguma frequência, e então passei a bater ponto na casa dela, todas as manhãs, sem falta, batia um papinho dava uma enroladinha daqui e dali  um mercadinho vez ou outra até conseguir um real e partir saltitante, feliz da vida. O problema era que minha avó não mantinha a mesma disciplina de minha mãe, e por vezes me via de volta à rua com os mesmos um e cinquenta no bolso e alguns minutos a menos no PES. E exatamente aqui nasce o viciado. Foi num sábado ou nalgum feriado, coisa assim, era um dia sem aula. A velha tem sono pesadíssimo, pensei frustrado, deita depois do almoço (que ela comia às dez da manhã) e nem uma guerra a faz abrir os olhos. Daí não pensei mais nada, dei por mim já no quarto de vovó, cuja janela dava pra rua, pulei sem a menor dificuldade, passos curtinhos e lentos, passei a abrir gaveta após gaveta, devagarinho quase parando, atento a qualquer suspiro, em busca do pote de ouro, lê-se bolsinha de moedas. Quando a encontrei, eis a surpresa, chacoalhei chacoalhei e nada de barulho, ressabiado, me sentindo enganado, puxei o zíper, nada havia além duma nota de cinquenta e outra de cinco. Aquilo me pegou, passei minutos olhando pra bolsinha aberta esperando alguma luz, meu plano consistia em grudar ali umas moedas e partir como quem nem chegou, rápido e ligeiro, mas aquela nota de cinco reais me olhando deu um biziu na cabeça, travou tudo, os neurônios se debatiam em busca de desculpas pra levar os cinco reais sem parecer roubo, porque inconscientemente me convenci que tudo bem apenas algumas moedinhas, moeda a gente ganha de troco, não usa pra nada (depois dizem que intelectual justifica até comer merda e a gente duvida – até parece que ninguém foi criança), portanto não faz diferença pedir ou pegar, ela vai dar de qualquer jeito. Como isso me confortava. Mas cinco reais não, cinco reais é papel, é o que a gente dá antes de receber o troco, é errado pegar, ela não planeja dar pra mim, mas comprar coisas e então receber as moedas que podem chegar a mim. Peguei. Na falta de argumentos, me convenci com um ah, vai ser só dessa vez. E peguei os cinco reais. Pulei a janela de volta, com muito cuidado pra mantê-la semiaberta como estava, passei o cadeado no portão sem trancar e fui-me embora. Tomei a pior atitude dentre todas as outras: pagar duas horas duma vez. Não podia chegar em casa com tanto dinheiro (três reais), então paguei duas horas e o troco, por via das dúvidas, se perguntarem ganhei de vovó. As duas horas mais longas de minha vida. Passei ela toda pensando na merda que acabara de cometer. Tive a sensação de um jogo de dez minutos durar três mil anos. Mas não me sentia mal por ter roubado, e sim por ter roubado cinco reais. Fossem umas moedinhas poucas teria sido um dia qualquer. Eu sairia da lan house direto pra casa, almoçar ver desenhos e jogar bola. O que, em parte, aconteceu. Saí da lan house direto pra casa, e como criança avoada, no banho dei por esquecer minha vida no crime. Só fui lembrado no dia seguinte, quando meu irmão chegou dizendo que estavam discutindo a falta de cinco reais na casa da vó. Mas ela não contou como quem quer chamar a polícia, meu irmão simplesmente pediu cinco reais prum ônibus pralgum canto, no que ela disse com certeza ter na bolsinha, mandou-o até lá e ele foi, voltou com a bolsinha vazia numa mão e cinquenta reais na outra. Ela disse não saber que fim levou os cinco reais, deu o assunto por encerrado e mandou meu irmão até a padaria trocar o dinheiro. Acabou comentando que passei a manhã inteira lá e saí sem nem dizer tchau. Logo, um tio que ouvia da sala ligou os pontos e passou a comentar com a família o sobrinho ladrão. Disse que chegou a me ver virando a esquina rápido como um vulto. Estava num bar e acompanhou de longe meus passos ligeiros. Eu não o vi em lugar algum. Hoje presumo que vovó sabia de tudo, tanto sabia que defendeu minha inocência quando lá estive dias depois e tive de sair fugido pra não apanhar desse mesmo tio que tentou fazer com que eu pedisse perdão. Você não pode provar nada, eu vim aqui pra ver minha avó e me dá licença, foi o que eu respondi alto antes de tomar um dos tapas mais bem dados deste século. Caí sentado frente a geladeira, aliás, caí não, pinguei feito uma bola. Da cozinha pra rua num pulo só. Minha avó não viu nada. Estava no banho se preparando pra me levar ao mercadinho. Desses passeios sempre me saía uns trocadinhos. Não dessa vez. Nem nenhuma outra. Não sei exatamente o que disse o canalha do meu tio pra sua mãe, mesmo com o canalha sendo eu. Posso presumir algo como o bandidinho saiu correndo atrás dum amigo. Fui pra casa trêmulo. Suando frio. Sabia, como ainda sei, que jamais teria, como jamais terei, coragem pra chegar em vovó e dizer me perdoa, vó, eu roubei mas sei lá, eu era criança, hoje eu não roubo mais. Ela não ia ligar. Aposto com você que ela nem se lembraria.

Minha avó ainda não se foi. Teve um AVC mas ainda não se foi. Segundo a medicina, apesar de seus quase noventa anos, existe a possibilidade dela voltar pra casa com a cabeça boa e conversando. Se voltará a andar já são outros quinhentos, mas com vida é provável que escape. O pouco do arrependimento que me azucrina a cabeça ainda não é o suficiente pra me fazer entender que essa velha vai morrer, está morrendo, essa mesma velha que em minha infância bradava o futuro brilhante que este neto teria, que quis me pagar todos os cursos da cidade (os quais não aceitei pra não passar por aproveitador, e aqui mais um indício do quanto me convenci de minha própria mentira, em todas as vezes aleguei que ela nunca gostou da gente e agora quer chegar com curso disso e daquilo), que pediu pra me ver dia sim dia não todos esses anos, e é quem assina como fiadora a locação da casa onde a gente mora. Existe um testamento mas disso não quero saber. Se vão ler quando vão ler, que não chegue a mim. Inevitavelmente chegará. Um dia ela vai morrer e a notícia vai correr. Uma parte de mim morrerá junto dela, a parte que sufoquei com todas as forças, que ansiava correr prum abraço, uma noite em família, que sonhava chegar adulto na casa da avó, apresentar a namorada, levá-la pra passear, almoçar qualquer coisinha e depois passar o resto da tarde vendo TV na sala, a criança que chegava na casa da avó gritando Ô VÓÓ e que nunca mais vai gritar, é esse lado que ontem chegou a ensaiar um choro, mas que ainda assim é incapaz de ir até o hospital dar a uma avó em seu leito de quase morte o direito dum último olhar prum neto que a fez esperar a vida inteira (o tempo há de me enfiar garganta abaixo tudo o que rejeito, gotinha por gotinha). E tudo por cinco reais.

Confesso que me é estranho assistir a velhos dando entrevistas (ou mesmo na rua jogando conversa fora), quando no meio do papo, geralmente pra fechar, o apresentador vira querendo saber dos arrependimentos do entrevistado. A grande maioria responde no ato: não tenho arrependimentos. Fico pensando que tenho metade da metade da idade de todos, e sou só arrependimento. De duas uma, ou os arrependidos morrem antes de todo mundo ou pra envelhecer é preciso mentir muito, até enganar a si próprio.

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