Esqueci de acrescentar que ela usa óculos

Não lembro exatamente como surgiu, já nem estávamos juntos, vivíamos naquele momento a fase que se vive entre o terminar e o desvincular as rotinas de fato. Não sei explicar. Quebrar o primeiro bom dia, as reclamações, dúvidas e boas notícias, o ombro de tantos anos de confiança pode demorar certo tempo, então acabamos por manter razoável contato, diário no início, pois isso alivia a dor de lidar de peito com o fim, e com aliviar quero dizer apenas atrasar, pois convenhamos, cedo ou tarde você vai ter de se trancar no quarto, junto dum Cartola e mais ninguém e sofrer tudo aquilo. Claro que ninguém diz isso alto, os anos precisam passar pra você perceber, mas como dizia, não lembro de onde saiu, ou o que falávamos, no meio da conversa acabei dizendo que se ela morresse primeiro, eu escreveria sua biografia. Penso que isso surgiu depois de algum resfriado ou dor de cabeça que tive antes de sair jurando que isso não vale envelhecer, ou das grandes decepções que ela vivia todos os dias como abrir a janela do quarto e o cachorro não pular pra dar bom dia, e não importa se estivesse comendo ou agarrado com ladrões, obrigação é obrigação. Enfim, depois dum dos dois alegar a morte como única solução pra unha encravada, o outro pode ter enfiado no meio da conversa o livro maravilhoso que acabara de ler, livros maravilhosos são assim, a gente só espera um silêncio pra enfiar em qualquer goela, e daí pra eu ter dito isso de se ela morresse primeiro eu escreveria sua biografia foi um pulo – a melhor forma de terminar um assunto no auge é sempre com piada ruim. Isso não saiu mais de mim, mesmo nos anos em que esqueci de sua existência, essa frase ficou comigo, escondida lá no fundo do baú, a espera da primeira lembrança pra voltar como um raio. Aliás, antes de pensarem que isso é uma carta de despedida a quem já morreu, quero dizer que ninguém morreu. Ao menos ainda não tenho provas suficientes pra acreditar em tanto. Posso dizer apenas que ela sumiu, assim mesmo, tão simples quanto impossível, escafedeu-se. Minha incansável investigação de trinta e cinco minutos não fornece nada diferente. Uma amiga da época respondeu que perderam contato já se vão uns quatro cinco anos. O irmão casou, segundo as redes, casou e foi morar não importa onde. Os dois nunca viveram uma relação assim, digamos, muito doce, e recorrer a ele não me pareceu viável, ao menos por enquanto, com tão poucas informações, a única hipótese realmente plausível é que ela está vivendo sua vida tranquilamente e já não fala mais com uma amiga de tantos anos, e confesso me parece um tanto difícil chegar sem mais nem menos, depois de tanto tempo, perguntando pela irmã de alguém sem parecer um ex-namorado maluco. Daí ele me diz que ela está muito bem, casada, tem três filhos e já chamou a polícia. Eu até falaria com mais amigos dela, se lembrasse de mais alguém – essa coisa de nomes não é meu forte. Sua avó era já bem velhinha, bastante cristã, e gostava tanto de mim que não me deixava sequer carregar o celular em sua casa, ele que vá gastar energia da casa dele, dizia ela. Mas não quero que pareça que estou pintando a velha cruel por ser dogmática. Afora não gostar de mim, o que é legítimo, sempre cuidou dos seus com muito zelo, ela e seu velho, que morreu com os netos ainda pequenos. E nunca me negou comida. Teve uma porrada de filhos que se casaram e foram viver suas vidas, mas teve também o bêbado maluco que a droga não deixa sair da casa da mãe, e pensando agora, nessa hipotética biografia quero poder separar um capítulo pra esse rapaz, pra refletir sobre coisas que não pude dizer antes, quando passávamos tardes no quintal de sua casa com esse seu tio jogando facas contra a parede, brigando com sabe-se lá quem, e em cinco minutos ele passava por nós contando piada pra ninguém e rindo sozinho, e daí se punha a fritar bolinhos de chuva conversando com sua amiga cadeira e depois de gentilmente nos oferecer um prato cheio de bolinhos, se sentava no sofá a rir do Gugu ou qualquer outra bobagem, e mesmo que em casa fosse assim, na rua nunca falou uma palavra que não fosse diretamente dirigida a alguém. Refletindo depois, me dei conta de que quem sabe aquilo nunca tenha sido loucura nenhuma, mas apenas solidão. A solidão pode ser avassaladora quando se mistura com a baixa autoestima de quem mais do que buscar na droga uma fuga, tenta fazer da mesma sua realidade, e então tudo passa a ser em função de alimentar essa solidão, o único refúgio da verdadeira realidade onde não consegue se encaixar. Mas não posso ficar falando disso. Eu devia me envergonhar, essa é a verdade. Sem um atestado de óbito ou qualquer vestígio que leve a um arrebatamento, como um chuveiro ligado, uma porta de geladeira aberta, um prato espatifado na sala com a TV ligada ou coisas do gênero, falar de alguém sem consentimento prévio não passa de fofoca. Mas eu não me aguento. Tem também outro tio o qual só não arranquei a cabeça por ser bastante frouxo, mas se o canalha, canalha não, se o desgraçado morreu arrastado por um caminhão, ainda não foi o suficiente. Desse não posso falar porque se ela ler isso, não quero que fique pensando no imbecil – nem ser processado. E também eu precisaria conversar com sua mãe, que só resolveu aparecer quase vinte anos depois de fugir. A história que se conta de seu sumiço lembra muito as estórias de novelas das oito onde por um motivo ou outro expulsam a mãe a tiros e inventam pra criança que a filha da puta não valia nada e foi-se embora porque não prestava e pronto. Nunca tive conhecimento do outro lado, e não sei nem se em algum momento, depois de passado o susto e a raiva, a própria filha criou coragem e resolveu ir até a mãe saber que diabo aconteceu. O pai morreu bem cedo, pouco depois de ela nascer, se não me engano. Do pouco que minha cabeça conservou sobre sua infância, sei que cresceu da escola pra casa, jogando futebol e subindo em árvores, correndo pra lá e pra cá o dia todo – só não se entendeu com bicicletas. Com o tempo se apaixonou por vôlei, mas não tinha onde jogar quando criança e depois de grande ficou tarde pra buscar esse sonho perdido. Gostava de Usher e Engenheiros do Hawaii, até consegui fazer ela escutar um e outro Chico, algum Caetano, e como na época eu ouvia muito Marilyn Manson, jamais deixaria ela escapar ilesa. Gostava também de séries com médicos e chocolate. E de Agatha Christie. Queria ser policial mas tinha muitas dores nas costas. Passou um tempo querendo ser aeromoça, mas o preço dos cursos a afastou de mais essa. Não tenho dúvidas de que ela seria policial se tentasse. E aeromoça. E jogadora profissional. Depois ela foi estudar alguma engenharia de comida, nessa época nos falávamos muito pouco, por isso não lembro com certeza o nome do curso, daí nunca mais falamos e aqui estamos nós. Eu só não gostava quando ela inventava de alisar o cabelo até ficar lambido. Seus cabelos eram tão lindos, meio hippie anos 60, e ela usava arquinho pra deixar ele pra trás, pra mim uma obra de arte, mas ela preferia alisar e fica parecendo as outras meninas. Quando ela tomou os remédios, eu não acreditei. Veio me contar que passou um tempo no hospital limpando o estômago como quem fala de dipirona, pensei que fosse piada, mas ela demorou um tempão pra ficar boa. Depois começou seus cursos, pegou firme na psicóloga e tudo parecia tranquilo até ela sumir de vez, ou sumir pra mim. Procurei pelas redes (fiz até login em contas de outrem pra ter certeza de que ela não havia apenas me bloqueado), nos perfis de familiares onde ela tinha fotos marcadas, e já não havia nada. Eis um rascunho pruma vida e tanto. Podemos focar no valor literário pra enganar a vontade de saber da vida dos outros. Será minha única defesa no tribunal.

Provavelmente isso não passa duma paranoia da minha cabeça, uma brisa, pra variar, como tantas, mas temos a triste mania de não pedir ajuda quando mais precisamos, e é nessas horas que acabamos por nos afastar do mundo, de todos. Uns pra não incomodar. Outros incomodados. Todos tristes.

Aqui vai uma observação: se em quarenta anos ainda restar em mim um pingo de memória e saúde, quando estiver sem muito o que fazer e me pôr a lembrar textos da juventude, se der por topar neste, não vou dar a mínima pra nada disso. Vou ler e reler atenciosamente, pois vai me servir pra ter por onde começar depois de esquecer absolutamente tudo, e então sair em busca de um por um e escrever essa vida do jeitinho que me der na telha, mesmo que não encontre ninguém, com ou sem todas as lacunas preenchidas, e o mas isso mas aquilo que se dane.

Ou posso fingir que não sei de nada e ir tirar uma soneca.

10 comentários em “Esqueci de acrescentar que ela usa óculos

  1. Recordo uma professora que há mais de 50 anos disse para escrevermos um diário e relê-lo 10 anos depois … recordo um jovem que estragou o futuro profissional com erros da juventude colocados online … recordo muitos teóricos da criatividade que aconselham de anotar todas as ideias, mesmo as que parecem absurdas … Mas com as novas tecnologias as ideias absurdas podem ser um estímulo da criatividade e inteligência coletiva online? Ou os autores de certas ideias podem passar por “idiotas”?

    Curtido por 1 pessoa

      1. o que você buscou quando me encontrou? na verdade é só um espaço perdido de desabafos sem muita coesão. quando estou sufocado, deságuo nessas nuvens, mas não feito chuva, não gosto de atingir ninguém hehehe! era para ser ‘segredo’.
        seu wordpress que é bom de verdade! lindos textos.

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  2. Li no frescor da publicação; atualmente quase não lendo, devido à rotina que optei, sabia que voltaria para apreciar com calma. Não pensei que se passariam dois meses.
    Admiro confessadamente sua escrita. Há tantas qualidades e momentos sublimes. E quando se lê de novo tudo se repete, em outros detalhes e sensações.
    Não desejo encabulá-lo, ou inflar qualquer vaidade. É que preciso, de modo egoísta, dar vazão a estes êxtases. E comunicar, como você o faz, o eco do barulho que você escreve. Música.
    Meus cumprimentos e parabéns.

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