Não votem, se matem

Dia desses vim contar dum campinho onde vez ou outra penso na vida. Pense numa noite bonita. Me sentei como um príncipe. Pernas cruzadas, isqueiro na mão, fone na orelha. Fogo. No primeiro trago brota, essa é a palavra, brota uma viatura feliz e contente contornando o campo. Não deu tempo nem de assustar, esconder ou jogar fora. Eram quatro. Quatro trogloditas pra um maconheiro magrelo de moletom e fones de ouvido e fumaça. Vidros abertos, barulho de carro ligado.
Tem mais o que aí?
Nada
Então afoga, primeiro afoga
Puta, ele não vai me fazer comer essa merda – pensei
Põe na boca e mastiga
Assim me pus a saborear lentamente um baseado recém-nascido, uma criança, um pecado, enquanto um deles sai do carro com uma lanterninha, devagarinho e me motivando com se eu chegar aí e tiver mastigando ainda vai apanhar, heim, engoli na hora, o riso no canto da boca não me convenceu de que fosse piada, abre a boca, abro a boca, mira a lanterna exatamente nos meus olhos. Não relou em mim. Não quis saber meu nome ou que eu moro dois quarteirões pra cima. Nada. Come a maconha e sai daqui. Ainda contei com apoio moral dum rapaz que passeava com seu pitbull em volta do campo. Andando em direção à rua, quando atravessei a entrada, passei por ele e ouvi baixinho “uns filhos da puta”. Me restou voltar pra casa, bolar outro e fumar noutra praça. Não vim aqui fazer denúncia. Existem coisas mais sérias a resolver. Comer maconha não é humilhação. Se querem humilhação podemos contar dos meninos flagrados fumando num campinho de terra tarde da noite dum inverno daqueles, postos de cueca no frio sob a condição de só serem liberados após pararem de tremer. Ou então, pra não ficar usando fatos isolados, podemos falar do mais corriqueiro, os que são tratados a tapas na cara por dois pinos no bolso. Perto de tapas na cara, comer maconha é só um desperdício. Um tapa na cara nunca sai da sua memória. Saber que seu amigo tomou um tapa na cara pelas mesmas coisas que você faz, ou seja, crime nenhum, tem o mesmo efeito, o sangue sobe igual. Dizem tanto que trabalhador não teme a polícia. Experimente sair de madrugada do trabalho. Antes de te liberarem já desmancharam sua mochila no chão e é você quem se põe de joelhos pra recolher uniforme marmita vazia tudo. E eles sorriem. A cada gesto de humilhação se segue um riso de canto, um comentário ao parceiro no carro. E a quem reclamar? Sobra ao moleque pobre reclamar com outros moleques pobres, enquanto fumam uns noutro canto sem polícia, ouvindo Racionais. Em meio a outros papos como futebol meninas e chefe e professor chato, surge o João que está sem colírio porque a polícia pisou, sem cigarro porque a polícia fumou, ou o José que apanhou porque mentiu que não tinha maconha mas tinha duas parangas e um pino, e já se foram quantas gerações disso? Quantos meninos cresceram sendo pegos com maconha e ao invés de a perderem como são cientes que pode acontecer, precisaram primeiro ser humilhados, virados de cabeça pra baixo, aterrorizados, amedrontados não pra que parem de usar drogas, o que nem sentido faz, mas pra que sejam cada vez mais escondidos, isolados, de preferência num presídio onde sempre existe a chance de perderem a cabeça numa rebelião da qual não tiveram a menor participação, e o presidente comemorar mandando-nos perguntar às suas vítimas. Não sejamos ingênuos a tanto de imaginar que alguém realmente acredita que a droga morre junto com quem a estava vendendo. O que importa é parecer ser. Presos estão se matando? Menos bandidos no mundo, pouco importando quantos não foram sequer condenados.

A droga é um mercado no qual o Bolsa jamais cogitou mexer. É no terror ao pobre como um drogado vagabundo que mora seus votos. Seja das madames que se assustam vendo preto com camiseta do Corinthians parado de frente a vitrines, martelando na cabeça os diversos rostos pretos vistos diariamente pela TV roubando postos de gasolina ou com quilos de drogas num quintal e pensando em seus filhos dando bobeira na rua com seus IPhones, e também no marido a defender que comprem uma arma pra evitar depender da polícia, que você chama hoje e só chega amanhã; dos policiais que ampliam sua baixíssima renda com as propinas de traficantezinhos de esquina, pra esses é importantíssimo saber que pouco importa se vão matar um no escuro ou sair atirando dum helicóptero (por vezes levando o governador do Estado) em direção a crianças saindo da escola, sempre haverá um tuite presidencial pra dar retaguarda, legitimar mortes de inocentes alegando supostas mortes cometidas por traficantes que ninguém conhece escondidos num local que segundos antes da polícia sair atirando respirava razoável paz; e vamos evitar os empresários, que se aproveitam dum país com seus vinte milhões com renda mensal abaixo de seiscentos reais (na cabeça do Bolsonaro o suficiente pra passar o mês, já que ninguém no país passa fome), pra sair gritando que o que mais tem no Brasil é gente pra trabalhar, que o que causa o desemprego é o fundo de garantia, o seguro desemprego, o limite de oito horas diárias, o processo que o trabalhador tem, ou tinha o direito de abrir a receber uma justa causa que não concordasse, levando-os a trabalhar calados, sem olhar pros lados, trabalhando muito e sempre mais por cada dia menos, afinal, não quer tem quem queira. Deixa esses pros intelectuais pensarem. Eu só queria dizer que a falta de dinheiro vai continuar sendo a régua que mede os que podem e os que não podem. Onde precisa de proteção e onde precisa de ação. Quem deve ser enquadrado e quem só está passeando. E quando uma criança que não convive com os pais, que trabalham o dia inteiro só voltam pra dormir e nunca abriram um livro na vida, não consegue prestar atenção nas aulas nem faz as tarefas porque não aprendeu na escola e obviamente não vai aprender sozinha em casa, cresce tendo no bairro pra se divertir pouco além de bola pipa e sinuca, quando essa criança se torna um jovem de currículo improvisado, passando menos de um ano em cada emprego, trabalhando por vezes sem registro, conformado de que não estudou o suficiente, enrolado pela balela da meritocracia, a velha ideia de que os filhos dos médicos são mais inteligentes por si só, porque prestam mais atenção e se esforçam mais e ponto (e dane-se se foco e concentração é algo a ser estimulado, tanto com a presença de pais com tempo a passar sentados no quintal de casa lendo livros, conversas em casa sobre a PEC tal, a peça de fulano, a família incentivando a leitura de clássicos [o simples ouvir do pai ou da mãe um “duvido que você consiga ler isso inteiro e me contar quem matou a rainha” já aguça a curiosidade do menino num tanto que só a última página pode fazê-lo parar – isso se ambos não saem antes do amanhecer e só chegam quando anoitece], quanto com histórinhas antes de dormir, madrugadas no mundo da imaginação, ouvindo ao fundo a voz dos pais falando do Peter Pan enquanto se envolve no sono, brinquedinhos que ajudam no raciocínio e laboratórios de ciências que as crianças do ensino público só viram parecidos nos filmes de Hollywood), o ciclo está completo. Resta-nos entregar currículos de loja em loja, empresa por empresa, em busca dum salário mais ou menos e uma folga na terça-feira, pois um dos grandes inimigos do atual governo é a folga remunerada, que desejam extinguir a pretexto de desburocratizar o país, tirar o Estado do cangote do cidadão, o Estado não pode intervir no Mercado pra te garantir um almoço com a mãe no domingo, diz o Chefe da Nação, isso cabe ao seu bondoso patrão e somente a ele. E se você tem família e vida, ema ema ema pra você.

O mesmo presidente que há trinta anos trabalha de terça a quinta sem a menor produtividade, em um de seus últimos discursos fez questão de amenizar trabalho análogo à escravidão. Aquele em que você recebe pouco; não descansa o necessário; não tem vontade nem voz; tem de aturar desaforo do gerente que sonha um dia ser dono e ter um gerente pra humilhar também, como acontece com ele, não apenas pressionando o que deve ser feito como inventando mais a se fazer, inventando obstáculos defeitos; vive em constante medo de errar, perder o emprego e morrer de fome; não pode encostar no balcão ou sentar-se numa cadeira por dez minutos que seja, você está sendo pago por oito horas, não sete horas e quarenta e cinco minutos; e se um cliente te mandar à merda, respire fundo, ele tem razão. Em contrapartida te deixam usufruir do total de uma hora do seu dia pra resolver questões pessoais, como pagar uma conta de água ou luz. Se não for assim, diz nosso presidente, a economia para. Segundo suas próprias palavras, excesso de regulamentação leva à paralisação da economia. Imagine se tivessem de dar um salário decente (por exemplo um mínimo europeu, e claro que estou exagerando: Espanha em torno de R$4.600,00 reais, Alemanha mais de R$6.500,00, Portugal, onde não precisaríamos nem gastar com a língua, R$2.600,00), colocar um ventilador pro infeliz não morrer numa panela, uma cadeira pra sentar vez ou outra e evitar destruir a coluna, dar ali vinte minutinhos prum café da tarde e olhar o céu, diminuir as horas trabalhadas, duas horinhas a menos no dia e um sábado no mês pra que a vida de ninguém se resuma a trabalhar pra comer, além de melhorar a qualidade de vida da maioria não seria o fim de nenhuma empresa, nenhuma economia. O que Sua Excelência quis dizer, e dessa vez não precisamos de nenhum Augusto Heleno pra traduzir, é que no dia em que tratarem o brasileiro feito gente, o Brasil acaba. Como quando nos mandou perguntar às vítimas dos 38 presos provisórios entre os 62 mortos sob responsabilidade do Estado no Pará o que pensam do caso. 16 decaptados, uma festa. Até abril, 35,9% dos presos no Brasil ainda não haviam sido julgados, a maioria por tráfico de drogas, e com tráfico lê-se uma sacola de pinos e outra de parangas e umas rochas, quando tanto. É esse o ponto quando nos acusam de defender bandidos. Não estivessem presos e ao invés disso entregando lanche, batendo massa, trabalhando numa cozinha, numa feira ou num hotel ou em lugar algum, pouca diferença faria. Estamos lidando com projetos de poder, que incluem protocolos, e um deles diz que a policia militar não investiga, apenas faz a ronda, age em flagrantes e guarda a cena do crime pra polícia civil, com um adendo, sem poder investigar, é preciso mostrar serviço, e mostrar serviço é pegar trombadinhas, entrar pelas favelas atirando em inocente, prendendo os que vigiam a biqueira, encher de pó o que não tem nenhum, e de pancada o que tem só um pouco. É mostrar aos de fora da favela que a guerra nunca terminou, que as drogas reagem e que cada rosto divulgado em jornais e TVs depois de presos numa esquina são os maiores traficantes do país, pessoas perigosas pra vida social, que com a justiça que temos logo vão sair e destruir mais vidas. No entanto, folheando qualquer jornal vemos que há pouco mais de um mês batemos a marca dos 800.000 presos. Mais de 300.000 são provisórios, trezentas mil cabeças aguardando julgamento por vender droga, roubar mercado, furtar tênis no varal e crimes equivalentes. Aquela imagem dos doze detentos algemados por dias num camburão em frente uma delegacia no RS por falta de onde enfiá-los ilustra bem a campanha do Bolsonaro, quase como uma luva. Ao mesmo tempo, há em todo o país 366.000 mandados de prisão pendentes. Estupradores, pedófilos, assassinos diversos, todos aqueles que a polícia deveria estar atrás ao invés de metidos em assuntos de saúde pública.

Enquanto compram mais baldes pra guardar mais cabeças, ao ministro da Justiça o que interessa é expulsar jornalistas do país e se safar dos vazamentos que arregaçam sua conduta da forma como o Bolsa com o diretor do INPE ao divulgar o aumento avassalador do desmatamento, e antes disso com o presidente dos Correios por criticar privatização e com o fiscal do Ibama que o multou mil anos atrás por pescar em área de preservação ambiental: atirando no mensageiro. Pro presidente, bandido bom é o Queiroz. Não foram poucas as vezes em que ele deixou clara sua vontade de, na falta de espaço nas cadeias, que se coloque um em cima do outro – como se já não fosse assim (não à toa tantos governadores adotaram o mesmo discurso – o medo leva à presidência). Não interessa ao governo Federal nem aos estaduais profundos estudos sobre o que fazer com essa porrada de gente presa sem data pra sair ou pra iniciar a pena, apenas tomando lugar dos verdadeiros criminosos, estes por aí fazendo o que lhes der na telha sem grande receio. Tanto não interessa que os conselhos com participação da sociedade estão sendo todos paralisados e esvaziados, um após o outro. O sistema prisional do Brasil usa porta-malas como cela mas não é só isso. À distante hipótese da polícia resolver, e no caso de alguns, conseguir fazer seu trabalho e pegar bandidos (um cenário tão provável quanto um salário mínimo de R$5.000,00 reais e educação gratuita e de qualidade, e diga-se, pelos exatos mesmos motivos: um povo educado e sem medo faz o diabo), o que implicaria melhores salários, melhorias nas condições de trabalho, como armas decentes, coletes que alguns nem tem, acompanhamento psicológico que é quase nulo (imagine seu parceiro de anos toma uma bala na testa do seu lado, antes de estar noutra operação amanhã, hoje você vai ter de contar à família do morto o que aconteceu, e ainda filtrar a cena do sangue que espirrou no seu rosto, que você limpa com a mão mas sabendo que nunca vai conseguir limpar, o último suspiro, os tiros voando ao redor e você tendo de continuar, sem direito a um mísero minuto de silêncio, uma única lágrima ao amigo, sem o menor apoio pra tanto, como não enlouquecer?), devemos acrescentar outra ainda mais distante, a boa relação entre as polícias, que vivem há muito essa briga de comadres, onde a polícia militar não se preocupa minimamente em conservar isolada a cena do crime corretamente, e em contrapartida a polícia civil não se comunica nem pra avisar que chegou bem. Repito: o que interessa é manter o terror.

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7 comentários em “Não votem, se matem

  1. Não há o que dizer, para além da tristeza que este texto causa. Eu ia falar algo sobre a falta de sentido na violência e forma como é feita a repressão (que por si já é discutível) à pessoas que simplesmente fumam maconha, ou outras drogas.
    Entanto, à conclusão da leitura vi que não tenho o que dizer.
    Até então, este país está condenado. É um vagão que se desgarrou da composição do mundo civilizado, científico, culto, moderno e pacífico.
    Mas por favor, continue nos falando. Há um espécie de consolo, em saber que não se está só, e alguém ainda pode ver outras coisas que não reparamos.
    Abraço.

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    1. Como você disse, este país está condenado, se desgarrou da composição do mundo civilizado. O país mais culturalmente diverso do planeta, nossas praias, rios, cachoeiras, montanhas, e nem vou falar das mulheres. As florestas do Brasil são gigantes, vão dizer até que uma alma fofa tenha pena de cortar a última árvore. Só acrescento a tristeza de perceber que os que dizem essas asneiras também são brasileiros. Não se dizem, são. Brasileiro não passa fome. Filosofia é uma balela. Desmatamento é guerra da oposição. Etc. E pior, país algum acaba, nem que caia do céu um messias levando tudo numa paulada só, e ele está tentando, por pior que o povo esteja, por mais autoritário que possa ser o goveno, vide aí a Venezuela, por mais árvores que se derrubem ou balas que se atirem, por mais lixo que se despeje no mar, o mundo continua de pé, indiferente à nossa existência. O pior que pode acontecer é todos morrermos, com o adendo de que morrer de fome frio calor ou afogado demora, dói e demora; morrer numa tortura então, ponha aí uma ternidade. Tente deixar que arranquem tua cabeça num presídio com espaço três vezes menor que o número de detentos, bote até o Faustão do lado, ou em cima de alguém, gritando SE VIRA NOS TRINTA AÍ, MEU pra ver o quão divertido pode ser e o quanto pode durar trinta segundos. Milhões de pessoas podem sofrer ininterruptamente por tempo indeterminado, empurrados sempre e sempre mais pra dentro do poço, e nunca alcançarão um final. Saber que não estamos sozinhos é um passo muito importante. Temos um mundo de blogs imundos de tão sujos gritando a podridão que nos assola, e gritando com a arte, que faz do grito certeiro e bonito. Por essas e outras eu também te peço: continue.

      Curtido por 3 pessoas

  2. Um apanhado da real, e lamentável, situação social do País.
    Uma cegueira secular impede que quase a metade dos brasileiros, e uma boa parte dessa metade desconhece a História do País, enxergue essa real, e lamentável, situação tão bem escrita no texto.

    Curtido por 1 pessoa

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