Pequeno tratado das doenças que queremos ter

Estou aqui num campinho perto de casa. Isso mesmo, estou. Não estava nem estarei. Estou. O campo fica grudado numa creche, e recentemente construíram uma pequena arquibancada, uns poucos degraus de cimento. E aqui estamos nós. Um tantinho ali pra esquerda ergueram também um pequeno quartinho. Não tem reboco ainda. Talvez seja um projeto de vestiário pras crianças do futebol. Funciona aqui uma escolinha, expressinho sei lá o quê, e os jovens correm dum lado pro outro o dia inteiro pulando pneu e ziguezagueando cones. Jogam futebol vez ou outra. Agora está escuro, graças a Deus sem crianças, e além de mim, apenas um negão gordo sentado degraus abaixo mais pra ponta. Come um pacote de salgadinhos e bebe uma latinha de algo que não consigo identificar. Gentilmente me ofereceu, tranquilo obrigado. Não tem luz no campo também, e as lâmpadas da rua batem nas costas, o que é uma maravilha, nada de clarão no olho nada de escuridão total. A primeira vez que vi essa arquibancada tive certeza de que só construíram pra eu fumar maconha. Esqueceram um chinelo dois passos de onde estou, puxei desse chinelo o óbvio, quem deixou isso aí já devia estar bem longe, disse ao nada. Rimos por educação. Enfim, ele se levantou e se foi, e eu coloquei os fones. É isso o que eu quero dizer: quando nada acontece a gente vai perdendo a vontade da coisa toda. Falo de escrever, lutar com as palavras, torcê-las e retorcê-las pra espremer uma só frase que preste em todo esse nada, e no fim terminar mudo. Entendo que antes de tudo, ao menos espero que seja assim, o primeiro e único amor do escritor é a leitura, ler ler e ler. Escrevem pois não sabem fazer muito que não virar páginas, e o peso da inutilidade hora ou outra cai pro papel. Mas não sou nada disso, não me desce essa ideia de me cravar escritor diante de Mario Prata, Veríssimo, Zuenir Ventura, falando só dos vivos. Sou só esse cigarro aceso e o silêncio, o som do vento. Falando assim pareço de uma tristeza absoluta. Fato é que ainda não consegui chegar no ponto. Vivo tentando entender o que dizem os escritores, uns que escrever é inspiração, uma martelada de repente, sem mais nem menos, como Gullar com seus poemas, outros tantos apostam na eficácia da insistência, sente a bunda aí e escreva sem parar. Nem tenho tanto repertório assim pra ficar escrevendo sem parar até sair algo decente, tampouco paciência pra esperar me cair do céu o romance do século. Me empurre contra a parede dizendo que estar aqui já é insistir, um fundinho de esperança de que dessa penca de bobagens vá brotar um Dostoievski. Como quem obedece direitinho só pra não estender o papo, vou concordar. Já tentei isso. Não sei fazer nada, é o que sempre digo. Mas as pessoas pensam que qualquer coisa que se diga contra si próprio é mero pretexto pra receber elogios. Em defesa destes também não costumo deixar claro o que quero dizer com não saber fazer nada. Longas explicações dão preguiça, e vamos lá, não sou o rei da síntese. Com não saber fazer quero dizer mais que simplesmente não saber fazer. Por pior que seja a situação, tudo se aprende, o ser humano é o bicho mais adaptável do planeta. Entregue uma calculadora e computador nas mãos dum Graciliano Ramos e terás um operador de caixa. Depois tire do caixa dele o empacotador pra diminuir a folha, e terá no operador de caixa um exímio empacotador. O cobrador de ônibus terminou como peça de museu pelo mesmo motivo. O problema não é sobreviver, sobreviver sobrevivemos: o ex-empacotador, sabe-se lá um potencial Botticelli, sempre vai poder abastecer um carro, carregar e descarregar um caminhão atrás do outro, passar a madrugada equilibrando bandeja, fritar milhões de batatas dia a dia, vender uma droga ou assaltar algum infeliz. Problema é quando não se vê no viver alternativa ao não saber fazer nada. Há tudo a gritar, mas não se alivia a alma com páginas cheias de BATATA PERERECA FÓSFOROS COELHO MARGARINA FOLHAS FOGUEIRA PRATO, ou mesmo com todos os palavrões e insultos existentes, é preciso elegância, silêncio, paciência, aquilo que ninguém sabe contar, se sorte ou dom ou muito treino estudo sofrimento ou se tudo junto ou qualquer outra coisa e nada disso, não se trata de simplesmente falar, quando o silêncio te aniquila qualquer pensamento falar é inútil, mas de se limpar, confessar à arte, com beleza, significando beleza aqui espontaneidade acima de tudo, natureza, enterrar todo o peso que te afunda, mas tratá-la, e aqui chegamos ao ponto, como uma dama merece ser tratada, um tantinho de Joji e Naomi em Amor Insensato, de Junichiro Tanizaki. Não existe pior doença que a arte. Quando a caçamba no seu estômago passa a entalar na garganta, e o silêncio vai te contornando, e enquanto dentro de você a luta é pra se levantar de manhã, do lado de fora o despertador vai tocar dia após dia e não importa se você não conseguiu escrever uma só palavra, o ônibus tem horário pra passar, há por aí uma porrada de clientes a atender, a perseguir com cobranças, cartões de crédito débito, CPF’s pra colocar na nota, materiais pra separar, panelas pra acender, lavar, quilos e quilos de pacotes de arroz açúcar caixas de leite e todo um supermercado pra empilhar bonitinho, muitas muitas privadas sujas, frigideiras espirrando óleo, paredes a pintar e a construir, há uma economia a sustentar enquanto você lava o rosto e se olha no espelho, escova os dentes, caga banha e pega a bolsa e sai, há contas que chegam mês a mês novinhas em folha, e há dentro de você um botãozinho do piloto automático que transforma a bendita oito da manhã num ciclo infinito, toda hora é oito da manhã, toda hora é sábado toda hora é segunda toda hora toda hora toda hora, e daí pra esse piloto automático te engolir é um passo. Talvez isso seja mesmo uma crônica do doente e não da falta de inspiração. O fato de não escrever não quer dizer nada além de que você não nasceu pra escrever. Bukowski, bêbado, sujo, desempregado, sem onde cair morto, com um lápis quebrado depois de beber a máquina de escrever, rabiscava num cantinho de jornal belíssimos poemas que jamais poderemos ler, pois ao se levantar da calçada ele os deixava ao vento. Esse é o escritor. Eis a única conclusão. O que disse eu daqui pra cima não passa do atestado do não-escritor, o sujeito que quer ser lido, não escrever – pois não sabe. Não estou aqui levantando bandeira a favor de mendigos intelectuais, limpe a bunda com sua arte e seja feliz, não é isso, o próprio Bukowski despejava toneladas de contos e poemas a editoras, quase todos negados, e continuou sendo Bukowski. Estamos falando de essência, princípios, do dinheiro como consequência. Vejam aí Paul McCartney a prova viva, duzentos anos de carreira e não consegue se aposentar e ainda toca onde quer, não estipula preços, pergunta simplesmente quanto o contratante tem e só aceita se sentir que deve ir, e se der na telha passa três horas em cima dum palco improvisado tocando de graça pruma cidadezinha de interior e deixa o palco se sentindo grato, leve e sedento por mais três horas daquilo, só assim consegue paz pra dormir. Pensemos no Brasil, mesmo que no resto do mundo ocorra processo parecido, desde o começo do século passado até praticamente o Plano Real, se dizer artista caracterizava a mais rebelde das atitudes, coisa de vagabundos, putas, drogados, aproveitadores, preguiçosos, mentirosos em geral. Completamente duros, contando suas vidas e as vidas uns dos outros, com suas tintas barulhos versos parágrafos, entregando à arte suas almas, tudo o que de outra forma jamais conseguiriam arrancar do peito, todas as pancadas e quartos baratos, depois duma noite inteira de bebedeiras com o dinheiro que serviria o almoço do dia seguinte. Inimaginável cinquenta anos atrás escritores aceitando dinheiro pra colocar marcas em romances: “e então ele entrou no McDonald’s, tomou uma Coca-Cola e chorou.. “. Claro que os tempos são outros, não alimento esse saudosismo de outras épocas. Vivamos nossa época. Vivamos o vazio. Oito pessoas reunidas entre o que faz refrão, o que faz uma melodia que gruda, outro que faz isso outro aquilo e no fim o resultado sai TRÁ TRÁ TRÁ. Atores de novela assumindo sorrindo que não frequentam teatro. Hoje a arte e o show business são um balaio só. E eu ainda não sei quando vou conseguir escrever de novo.

15 comentários em “Pequeno tratado das doenças que queremos ter

  1. Gostei. É uma escrita em ziguezague. O começo não tem nada a ver com o final. O que os liga é a inquietação de ser ou não ser escritor. Me conforta a definição de Woolf sobre o escrever. Escreve-se para que a alma entre em comunicação. Apenas.

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  2. Li-o à hora do almoço, e tive de fazê-lo outra vez à noite. O motivo foi o que mexeu aqui e a necessidade de reler, depois de alguma digestão. Há tanta informação, escrita como você escreve, que o balanço aqui é nítido. Causa algo. Pensar, sentir, imaginar (como a cena da arquibancada no campinho onde escreveu), perceber, gostar, e aprender coisas.
    Me interessei por Bukowski, e já tinha visto menção a ele em outro lugar.
    Dearrot, você está saindo um cronista de primeira. Nesse prado, nada deve a nenhum outro.
    Você é raro. E curioso, seu silêncio que esvazia as letras. Há muito aí dentro, e instrumentos de prospecção do mundo e de si afinados e potentes. Estás mais para oceano em calmaria; engana a quem o contempla por somente algum tempo.
    Um grande abraço.

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  3. Um pretenço autor de ideias para um mundo melhor com 67 anos sente-se honrado de ser seguido por um jovem com mais comentários que refletem mais público interessado… As novas tecnologias permitem a colaboração da criatividade e inteligência coletiva de jovens e velhos para inventarmos um futuro mundo melhor? https://neofuturo.wordpress.com/ .

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    1. Publiquei o comentário anónimo por engano. Afinal tenho vários nomes online para diferentes interesses e objetivos: Piresportugal para MMM=Missão-Mundo-Melhor, Neoleonardo para III=Invenções-Inovações-Ideias de psicologia, ética e filosofia para um mundo melhor, “NeoMachiavelli” para ideias em italiano para um melhor futuro de Itália e do mundo.

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      1. Muito obrigado. E respondendo à pergunta que você fez em anônimo, acho que sim e que não. Temos mais informação e mais conectividade, mas por outro lado menos toque, presença física e não focamos mais em nada, a notícia de agora em cinco horas se torna notícia velha. Repetimos as manchetes e não poderia ser diferente, são só manchetes que nos aparecem, uma depois da outra, não há quem tenha tempo pra grudar em cada uma e entender o que se passa, então repetimos clichês das pessoas que gostamos, muitas vezes discursos extremados demonizando o outro justamente pra nos pegar pelo único sentimento que nos une: o ódio. E olhando por esse lado, o da depressão, da polarização, não temos tanto o que comemorar. Mas é aquilo: a internet é muito boa, fantástica. O problema é de quem não sabe usar, e nós não sabemos.

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