Paysandu

Normalmente, desde a tenra infância, ouvimos que o Brasil é um país cheio de outros países dentro, cada qual com sua cultura, seus estilos, canções e até mesmo fuso-horário próprios. Até aceitamos isso, mas acabamos por subestimar o quanto pode sofrer um sergipano solitário em Curitiba, ou vice-versa. Paysandu sabe o quanto foi fácil se adaptar. Chegou em Marília com a mãe mais o pai pra tentar fugir do inferno que pode ser a capital, vieram de Belém, mas aconteceu que nos primeiros dias sua avó deu de tropicar limpando a casa, bateu a cabeça e morreu, então os pais precisaram voltar voando. A burocracia pra morrer, digamos, é infernal, não podemos sequer enterrar uma mãe sem ter de correr pra todos os lados atrás disso e daquilo, resolver onde e como será o velório, a roupa que vai no defunto e o caixão que ele vai dentro, as rosas que vai segurar, a lista de convidados, gastando toda uma grana, seja com parentes distantes, pra dar ao cadáver um último adeus decente, seja com remoção do corpo prum cemitério duma cidade próxima, desejos comuns em velhos, ser enterrado com o marido esposa ou filho, coisa que exige muito sangue suor e dedicação em busca da devida documentação, como requerimento de transferência, cópia da identidade do requerente, do proprietário do jazigo que vai receber o corpo, cópia da certidão de óbito, alvará judicial e até autorização expedida pela Vigilância em Saúde Ambiental, pra evitar que o corpo pegue fogo de tanta felicidade, entre outras diversões só permitidas a quem quiser enterrar uma mãe. Infelizmente dinheiro não nasce em árvore, nem muito menos passagem aérea, então os pais tiveram de ficar lá até levantar algum, enquanto Paysandu ficou aqui, tentando viver do seguro-desemprego e de trocos que os pais mandavam pra ajudar no aluguel. O conheci dando trabalho logo de manhã, já o tinha visto pelo bairro, mas só fui dar atenção a sua existência ao entrar na padaria e o ouvir pedir me veja doish reaish de careca, a interrogação gritante que se formou na testa do padeiro o forçou a se corrigir, doish reaish de pão, todos rimos, ele disse ser de Belém, se desculpou e se foi, e já estava sumindo da minha memória quando saí da padaria e o vi como uma estátua na esquina, tentei passar direto, confesso não achei muito prudente oferecer ajuda a alguém que chama pão francês de careca, mas ele não se importou, assim que passei me puxou, perguntou onde fica rua tal, bairro tal, fica aqui pertinho, uns vinte minutos andando, antes de continuar percebi em seu rosto a indignação de alguém processando uma distância de vinte minutos, mandei ele descer diretão a avenida da igreja, dois quarteirões depois de onde estávamos, você desce aquela avenida ali e quando der numa casa de esquina com um quintalzão enorme, pergunta pra alguém a rua pois o bairro é por ali, ele ficou encarando o lado pro qual apontei, a cabeça ainda travada nos vinte minutos, imaginei, até que resolveu falar, disse que chegou na cidade dias antes, veio com os pais aventureiros, que resolveram mudar o lado do mapa duma hora pra outra, mas precisaram voltar por uns tempos e o endereço em mãos seria duma lojinha de presentes que também tira xerox, pra entregar currículos, moro descendo alhi, apontou proutra rua, não conheço nada aqui. Depois dum pedido desse, impossível não se oferecer a levar o infeliz até onde ele precisa, seria como negar água a Cristo. Apenas quando chegamos na tal da casa do quintalzão fui entender a razão do TILT de minutos antes, assim que apontei o quintal ele franziu o cenho, vocêsh chamam pátio de quintal?. pátio é pátio, oras, eu disse a ele com minha enorme soberba, uma grande área aberta no interior duma construção qualquer é um pátio, nas casas temos quintal, outra vez o silêncio de quem tenta processar nova mensagem, continuamos andando. Demorei a me tocar o quanto estava sendo desagradável com um estranho vindo de tão longe, não que me importe, mas resolvi ser mais educado, fingir interesse vez ou outra não nos custa tanto, o que é um pátio? perguntei, rindo. pátio é a frente da casa. a frente da casa?. sim. e onde fica o quintal?. o quintal fica na parte de trásh da casa. Aí foi minha vez de travar, como o quintal fica na parte de trás da casa?. na frente fica a garagem e o pátio, depoish o quintal, onde dorme o cachorro, onde fica a máquina de lavar e tudo, vocêsh conhecem o pátio como quintal, certo?. quintal é quando está vazio, precisei dizer, se tem carro estacionado é garagem, vazio é quintal, tudo o que fica entre o muro e a casa conhecemos por quintal, ele riu, ameaçou dizer alguma coisa mas o atrapalhei pra lhe mostrar seu destino, a lojinha de presentes fica logo ali, ele me agradeceu, demos as mãos e as costas. Depois dum diálogo tão enriquecedor como este, só me restava o lar-doce-lar.

Pense num perna-de-pau de respeito, daqueles que até mesmo times de próximo brigam pra não contar com seu talento. Agora pense num pivô dos sonhos. Paysandu. Não chuta não cabeceia, qualquer domínio é bola perdida e não se engane, também não serve [nem volta] pra marcar, no entanto, ajeita uma bola pra quem vem de trás quase como um anjo usando as mãos, talvez por conta das caneladas, não importa, é só chegar chutando. Esse apelido se deve ao seu guarda-roupas só de camisas do Remo, demorou a se acostumar, mas como é comum aos que se revoltam, o apelido pegou. Da primeira vez que apareceu pra jogar, estávamos todos na rua, sentados falando merda, esperando a formação dos times pra descer pra quadra. Via de regra, os dois melhores, por hipótese alguma, podem cair no mesmo time, mas ao mesmo tempo, sempre tentam fugir pra cair no mesmo time, então acontece de ninguém dar um passo a frente nunca, se arrastando numa briga interminável, cada um mandando o outro tirar o time, toda vez é a mesma coisa, e só depois de muito tumulto e ameaças de entrar pra casa ou não jogar mais, é que os dois resolvem ceder. E estavam os dois Garrinchas da turma escolhendo seus parceiros, de cara amarrada, quando Paysandu resolveu se manifestar, shortinho azul, camisa do Remo, posso jogar com vocêsh?. monta aí um time de próximo, gritou uma voz. Ele se juntou aos rapazes sentados do outro lado da rua, os que sobraram, eu incluído, cumprimentou um a um e perguntou se havia espaço no time, joga no gol?, ele me encarou, mash vai alguém comigo?. revezamos todos, um gol de cada. As regras são sempre as mesmas, o time que toma dois gols sai, mas não marcamos tempo, dure dois segundos ou quatro semanas, termina dois. O jogo em ação demorou mais de meia-hora, meia-hora de muito lá e cá, correria, até em escanteio estavam discutindo, quase uma libertadores, até que terminou. Com todos exaustos, sedentos por um gole d’água, entramos em campo agarrados numa só esperança, estão todos cansados, vamos pra cima duma vez que temos alguma chance. Mas o time vencedor, por nos conhecer, pensava de outra forma, estamos cansados, vamos aproveitar os pernas-de-pau pra jogar tranquilo e descansar pro próximo jogo. Entramos em quadra, o time de lá resolveu arriscar do meio-campo, Paysandu, que ainda não era Paysandu, mandou abrir a barreira, égua, sai que eu não vejo a bola, obedecemos. O rapaz adversário tomou distância, se preparou pruma porrada, mas escorregou o pé de apoio e o tiro saiu todo triste, estava indo direto pras mãos do nosso Dida, mas ele decidiu que o melhor seria dominar a pelota na coxa, conseguiu raspar com o joelho direto pra dentro, golaço, um a zero pra eles. Ninguém disse nada, a primeira merda se costuma relevar. De pronto, ele se ofereceu a continuar de goleiro, se defendeu dizendo que não tentaria mais brincar no gol, achamos simpático. Saímos com a bola, toca aqui, toca ali, toca acolá, volta a bola pro goleiro, a bola vai até o goleiro, o goleiro fura a bola, tenta dominar parando o pé por cima dela e ela passa por baixo, dois a zero pra eles, estamos fora. Dez segundos de jogo, após esperar uma década sentados. A bunda ainda estava quadrada, comemorando estar de pé, quando estávamos nos sentando outra vez. Todos olhamos o goleiro, rindo de vergonha o coitado. Porra, Paysandu, segura a bola, meu, gritou nosso atacante manco. Explodimos de rir, o imbecil acabou de chamar um torcedor do Remo de Paysandu. Até Paysandu riu. Advertiu ser torcedor do Remo. E você tem coragem de usar essa camisa jogando desse jeito?, outra vez nosso manquinho, você é Paysandu, rapaz. No próximo jogo fui no gol, como era ali o único que o conhecia minimamente, de quão longe saiu, me ofereci pra trocar. Nessa duramos uns minutos a mais, porém, a cada toque de Paysandu na bola, um novo desespero. Não dominava uma, as que conseguia manter em controle, mandava na lua ou entregava de graça, chutando pra lateral ou pro adversário mais próximo, se não aparecesse um tonto pra receber, coisa que nunca aconteceria, pois éramos um bando de muros, cada qual socado num canto da quadra. A cada nova canelada, ouvia-se um pô, Paysandu, calma, meu. Se conseguia dominar uma bola, lá na outra ponta uma voz gritava, vâmo, Paysandu, seguida do já clássico pô, Paysandu, ao observar a bola subindo pra além do alambrado enorme que fica atrás do gol. O jogo acabou as piadas continuaram, o que o levou a parar de rir pra fingir estar tudo bem, ligeiro inventou uma roupa pra lavar e foi-se embora, virando a esquina sem nem olhar pra trás (experimente em Porto Alegre, chamar um gremista de colorado). Um erro, esqueceu de deixar seu nome. Virou Paysandu.

Novorizontino x Corinthians. Paulistão. Jogo chato, arrastado, nada de nada, cochilo total. Nos últimos lances, numa bola tão sofrida quanto o restante do jogo, um bate-rebate dentro da área, a bola bate e volta bate e volta bate e volta, até que um pé consegue pegar de jeito e pronto, vence o jogo, um a zero Novorizontino. Paysandu passou o jogo todo nervoso, não liga pro Corinthians (essa raiva ficou por minha conta), o que não o deixa dormir em paz é o açaí que temos, que ele passou a chamar de açaí entre ashpash. Com leite-condensado, granulado, creme de leite, morango, banana, doce de tudo quanto é jeito e um por cento de açaí, Paysandu não consegue se convencer de que chamamos isso só de açaí, e não de milk-shake de açaí, vitamina de açaí sorvete de açaí ou qualquer outro doce que fizesse do açaí mero sobrenome. Não, Paysandu, açaí é isso e isso é açaí. Poish veremosh, se indignou a dizer. Na terça, apareceu em casa, estávamos arrastando a tevê pro quintal, não pra assistir, mas pra jogar, ele com uma tigela cheia de açaí, só açaí, e outras sacolas. Entrou dizendo que hoje vou ensinar a vocêsh como comemosh açaí em Belém. Farinha, Linguiça. Encheu o prato com arroz de ontem da minha mãe, muito feijão, encheu o açaí de farinha, um copão de cerveja pra descer tranquilo, sentou-se na frente da tevê: uma colherada no arroz com feijão outra no açaí com farinha e uma mordida na linguiça. Experimentamos, uma delícia, fizemos então uma aposta, pra cada gol tomado uma colherada com gosto no açaí com farinha, e dane-se a refeição do amigo. Pagamos pra ele um sanduíche de churrasquinho grego, pra fazer da ocasião uma troca mútua de culturas, e assim desrespeitamos a cultura dum dos mais ricos estados desse Brasile, terra de José Veríssimo, Billy Blanco, Ismael Netto, Fafá, desrespeitamos com gosto, rindo como crianças, segurando pra não gorfar nem se mijar, tentando falar FA RO FA com a boca cheia de açaí com farinha e os olhos a lacrimejar, enquanto Paysandu saboreava seu sanduíche da morte, se engasgando de tanto rir.

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