As bocas falam

Numa cidadezinha pertinho de algum lugar, elegeram um prefeito que entre outras qualidades, todas comuns aos nossos representantes, homem honesto, de bem, temente a Deus, já estivera também envolvido em algumas denúncias, pequenos equívocos, como gostam de dizer, réu em todos, tais como corrupção passiva e ativa, envolvimento com organização criminosa, direcionamento de licitações e prorrogação ilegal de contratos pra aquisição de merenda escolar, uso de laranjas pra ocultar propriedade de meios de comunicação, meios de comunicação que a Justiça decidiu suspender as atividades já há bons anos, coisa pouca, aos cochichos comentam que fora mandante do assassinato do próprio filho, um adolescente de quinze dezesseis dezessete anos, muito bonitinho, que segundo as bocas miúdas, nas brigas com o pai por beber demais se drogar voltar tarde ou qualquer outra trapalhada, quando tomava uns tapas na bunda e tinha de enfrentar meses no silêncio do quarto, passou a ameaçar “contar tudo à imprensa”. Ao que parece, a solução surtira efeito, o pai deixou de levantar as mãos ao coitado e os castigos pós-merda não mais iam além da clássica cara de bravo seguida dum “muito feio isso, viu”, os horários foram pro beleléu, e não deixa de ser um tanto estranho a opinião da mãe nunca entrar na pauta, pra qual lado corria ou mesmo como reagia aos excessos do filho rebelde. O problema nasceu quando o menino percebeu o ouro que tinha em mãos. O “vou contar tudo à imprensa”, mesmo que “tudo” signifique apenas as pancadas do castigo, se institucionalizou dentro de casa, qualquer palavrinha do menino, o menor dos pedidos que fosse, adentrava a sala envolto duma autoridade tão silenciosa quanto avassaladora. Ganhou permissão pra usar o motorista o quanto quisesse. Abusou da influência do prefeito pra dar festas onde fosse, conseguiu proibir até uma quermesse beneficente numa praça do centro, pra não atrapalhar sua privadíssima na casa duns amigos, que moravam quarteirões distante da praça. E duma hora pra outra passou a ser comum fotos do filho adolescente do prefeito bêbado em situações das mais inusitadas, nu, diante duma piscina, mijando na água, cheio de gente ao redor; sentado como um Buda no teto duma viatura; apontando um revólver pra cabeça duma loira esparramada em seu colo com os peitos de fora, rindo e rindo; as tantas blitz em que era parado com amigos todos bêbados ou/e com drogas e ao invés de se desculpar, quando o policial se mostrava mais honesto que o normal quanto a dinheiro drogas e putas, colocava papai na linha pra livrar a sua ali, na hora e de graça, e tantas outras peripécias que o prefeito tentava se esquivar de maneiras geniais, ora dizendo pra se ter calma, adolescente é assim, faz merda mas cresce, ora culpando outrem, atirando pra todos os lados, alegando que se não fosse o filho do prefeito, essas fotos não tomariam tal repercussão (ah, vá), se indignando com essa perseguição à sua família, ou fingindo atender o celular e saindo de levinho com a mão na boca. O ápice da paciência fora atingido quando teve de abandonar seu discurso anual do aniversário da cidade, festa lotada, antes mesmo do sagrado desfile militar, pra correr até a delegacia soltar o filho detido espancando um mendigo na companhia de dois amigos na última noite. Antes do término da festa começaram a pipocar as primeiras manchetes: prefeito passa a mão na cabeça de filho agressor; prefeito abandona aniversário da cidade pra buscar filho inconsequente; agressores de morador de rua seguem presos, com exceção do filho do prefeito. Pronto o bafafá, o prefeito só deu as caras pra alegar ser seu filho o único menor de idade do grupo, justificativa que, obviamente, serviu apenas pra aumentar o ódio da opinião pública. Outros movimentos que não ajudaram muito a amenizar o fato foram as fotos do menino de férias numa ilha ma ra vi lho sa publicadas em sua rede social. Questionado, o prefeito apareceu no principal diário da região lamentando o ocorrido, se dizendo de braços abertos para quaisquer necessidades do infeliz, porém, não havia maneiras de manter o filho na cidade com segurança, fora apenas uma atitude dum pai desesperado, nada disse em relação ao destino do rapaz ou aos outros dois agressores, apenas negou conhecê-los. Nos jornais não se encontra a menor nota sobre o retorno do garoto, ou data prevista, qualquer coisa. Sabe-se nada além de que, de alguma maneira e sem deixar rastro, o menino voltou, tanto voltou que da já citada entrevista concedida ao jornal local, onde o pai manifesta seu medo de linchamento mantendo o filho na cidade, até a primeira nota sobre a morte do rapaz, no mesmo jornal, correram em torno de quarenta dias. Quarenta dias de porradas ininterruptas, a prefeitura se fechou em si mesma, manifestações exigindo renúncia, atearam fogo em ônibus, brigas diárias com a polícia, cartazes com imagem do mendigo todo ensanguentado no corredor do hospital brotavam pelas paredes da cidade, e sempre com uma pitadinha das outras tantas denúncias em que é réu, por onde andavam, seus familiares eram vaiados, acusados de cumplicidade, e nada do prefeito se manifestar. A prefeitura só fazia soltar notas, dizendo que o prefeito nunca se escondeu de nada, como brada a oposição, mas que está em viagem rumo uma reunião com o governador, e que ao voltar visitará outras três escolas onde foram inaugurados laboratórios que não pôde comparecer por conta da polêmica, mas sem citar a polêmica ou dar qualquer justificativa sobre o porquê do não-comparecimento. Tentaram de todas as formas voltar à normalidade, pra cada questionamento da imprensa, surgia um novo compromisso, sempre em busca de apoio pra reformar o decadente museu de paleontologia, lutas contra as duas empresas responsáveis pelo transporte público, que se arrastava numa guerra quanto aos novos bairros criados pelo Minha Casa, Minha Vida, onde ambas se recusavam a abarcar, todos urgentíssimos, todos em prol do melhor pra cidade, o que o impossibilitava de reaver polêmicas antigas, desvarios infantis, desnecessários e et cetera. As redes sociais do filho foram excluídas, porém, nessa os jornalistas locais falharam, não se sabe seu possível último post, se há razões pro sumiço do rapaz desde as lindas fotos na praia, o dia exato da exclusão das redes, que tipo de contato mantinha com os seus. Fizeram entrevistas com amigos, médicos, conhecidos, empregados, parentes distantes, contornaram um perfil de alguém sem-limites, que faz o que lhe dá na telha desde cedo e dane-se, embora bom aluno, atleta, nada louco e há muito vivendo uma péssima relação em casa, mas não se aprofundaram. Quando da morte do rapaz muito se falou. Apenas chegara esfaqueado ao hospital, já desacordado quase morto, sem muitos dos dentes inteiros, a cara toda inchada, com indícios claros de espancamento, um braço pendurado, nariz partido em três, enfim, mais lindo que nunca. O carro do pai estacionou menos de vinte minutos depois. Entraram desesperados a mãe o pai alguns dos avós, encontraram duas enfermeiras prostradas diante da sala onde se encontrava o corpo do rapaz, que sucumbiu a uma pequena parada cardíaca. Na autópsia constataram sinais de envenenamento, e logo deduziram que antes das pauladas pancadas facadas e outras bossas, o rapaz primeiro fora envenenado. O pai, no dia seguinte, de frente o caixão, desabafou, apontou a imprensa e a oposição como principais culpados no assassinato do filho. Teve de esconder o menino durante todo esse tempo por conta das ameaças, trouxe-o de volta o mais discretamente possível, pra que tivesse suas aulas em casa, como se não existisse escola no mundo onde estudar. Chorando, gritou o quanto sofreu diariamente, vendo um filho em busca dum perdão que nunca viria, por conta dum erro do qual se martirizava todo o tempo, afundado na depressão. Com muito custo, finalizou com os olhos perdidos no horizonte, o convenceu a visitar alguns amigos próximos, pois de tão traumatizado, mergulhado no pânico, o rapaz se recusava a pisar fora de casa, e até enfiou pelos cantos câmeras escondidas, de onde o monitorava o tempo todo, com medo de possíveis atitudes extremas devido ao estado em que o rebento se encontrava. A última vez que o vira disse ter sido na noite anterior ao crime, deixando-o na casa de dois primos, na primeira noite que ele aceitara sair após todos os acontecimentos. Começou a contar os últimos momentos com o filho, quando os primos combinaram um boliche pra tentar animar o rapaz e mostrar que nem todo o país o queria morto, que devagarinho retomaria sua vida, então afundou em lágrimas e se foi, empurrado pela mulher, todos aos prantos. Os primos alegaram na delegacia que no boliche o filho do prefeito conheceu uma garota, algo difícil de acreditar, ao menos com base nas condições em que se encontrava o jovem, descritas pelo próprio pai, mas saíram de lá os dois rumo um motel próximo, pegaram emprestado o carro dum dos primos, combinaram que estes tomariam depois um ônibus, pra que o rapaz pudesse assim levar a moça embora sem maiores preocupações, e se veriam todos em casa, mas só foram o reencontrar depois de morto. A menina contou que foram surpreendidos numa emboscada, quatro homens de moto, após confiscarem celular carteira tudo, reconheceram o filhinho do prefeito e um deles disse conhecer a vítima, que estaria cego e paraplégico após sair do hospital. Daí abandonaram a menina e seguiram no carro, um com o rapaz e o restante disfarçadamente atrás. A menina procurou um telefone próximo, contatou a polícia sobre o sequestro do filho do prefeito, indicou onde foi e a mandaram procurar um local seguro imediatamente, então ligou pra mãe e foi pra casa. Sobre o envenenamento nada se disse. Assim que vazou o resultado da autópsia, o prefeito veio a público, cheio de ódio, lágrimas como cachoeira, prometer que não fecharia os olhos outra vez enquanto não encontrasse quem envenenou seu herdeiro, pra depois espancá-lo até a morte sem resistência. Com a mulher ao lado, soluçava.

Aí começaram as dúvidas. A imprensa não se atreveu a publicar nada quanto ao assunto, nem as menores indiretas. Depois da tragédia, nem mesmo sobre o espancamento do menino num cidadão dormindo na rua sem dever nada a ninguém comentaram, o estado da vítima, dos agressores, esqueceram tudo. Mas esqueceram daquele jeito. Por que o prefeito trouxe de volta o moleque sabendo que ele não escaparia dum belo dum cassete? As pessoas se perguntavam umas às outras, filas longas estão aí pra isso, e por que não permitiu sua prisão, mesmo que temporária, pra não dar margem à tal da oposição que tanto denunciava? E por que o fedelho foi passear na praia após tentar matar uma pessoa? E tendo sempre em mente, pouco importando o tom, o histórico do juninho [e do pai]. Dificilmente as dúvidas sobre o poder que o filho exercia deixariam de chegar aos ouvidos da família. Mas o já esperado silêncio absoluto quanto a qualquer pio relacionado ao assunto foi tratando de varrer pra debaixo do tapete quem matou os motivos pra matar e tudo o mais. A garota envolvida, se mudou da cidade tão logo conseguiu, ninguém sabe onde se enfiou, de onde saiu.

O tempo passou, veio a missa em homenagem ao rapaz, no aniversário de morte. Numa manhã chuvosa, a pequena imprensa também ali com seus correspondentes, pouco demorou até se avistar adentrar a igreja, ao lado da esposa usando um enorme vestido preto, um prefeito andando triste, falando baixo, sem muita direção, terno impecável. Terminada a missa, o padre passou a palavra ao pai. Depois de esbravejar mais do mesmo, lamentando a morte do filho, jurando não desistir enquanto não enfiar o culpado na cadeia, entrou então no assunto do mandatário, pois não fora um crime comum, e tanto o mandante quanto os assassinos continuam por aí, livres, e arrematou, há até comentários de que eu próprio matei meu filho, com raiz numa oposição torpe, que se aproveita da desgraça dum semelhante, pra vender suas teorias loucas de que meu filho mandava em mim, como se qualquer pai aqui permitisse tamanha loucura. A mulher não disse nada.

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