Histórias corriqueiras que a gente conta mas que no fundo são uma só

Nunca tive avô. De ambos os lados, pai e mãe, não fui neto. Não deu tempo. Meu irmão sim, teve avô até os cinco anos, mas quando nasci ele tinha seis. Do lado materno, o velho morreu tragicamente, amassado por um trator desgovernado enquanto fechava o portão da chácara em que trabalhava como vigia. Mamãe diz que ele sempre fora desligado (tal avô tal neto), portanto não deve ter dado a mínima ao barulho do monstro aniquilando tudo em sua direção até estar entre ele e o portão enorme com barras de ferro. Já a avó se perdeu num câncer, acho que no estômago. Curioso que entre as mortes, sem querer dizer nada, apenas informação inútil, correu exatamente um ano.
Os dois que restaram, pais de papai, do avô não sei (aliás, sei de um, mas não era de sangue e morreu muito cedo). Apenas que, com os filhos desembocando na pré-adolescência, mandou a mulher à merda e se enfiou mundo adentro com outra velha. Já minha avó conheci, essa posso chamar de minha. Nasci na casa dela, pouco antes de meu pai morrer. Abro um parênteses pra falar sobre a morte do meu pai: a morte do meu pai veio como um Messias pra gente. Anos antes de vir ao mundo este aqui da caneta, pai mãe mais um menino tiveram de sair da casa onde moravam. Pagavam aluguel. Pra resolver o problema de ficar se mudando de tempos em tempos, o pai resolveu então que, até conseguir casa própria, iriam morar na casinha nos fundos do quintal de sua mãe.
Ali ele se acomodou. Pouco trabalhou. Ficava poucos meses num trabalho mais uns três em outro, foi perdendo um a um por chegar bêbado ou por preguiça de ir com ressaca. Em casa passou a chegar cada dia mais tarde. Quando as reclamações da mulher passaram a incomodar, ele logo descobriu que é só fechar a boca dela na porrada e pronto, resolvido. Mas ela nunca se rendeu. Gritava mais, arranhava a cara dele, mordia onde conseguisse, chutava batia, uma vez foi até a sogra, inteira machucada, pedir ajuda, recebeu de resposta que precisava se comportar. Então vim ao mundo e ela se viu na obrigação de realmente “se comportar”. Eram dois filhos pra criar e nenhum lugar pra ir. E ela se comportou muito bem. Parou de reclamar dos horários, de reagir às pancadas, por seis meses ele fingiu que tinha um trabalho, acordava pra sair, voltava tarde da noite mas não passava de uma mulher. Duas três quatro. No entanto, ela já sabia da verdade desde a segunda semana, quando contou a uma amiga que o marido conseguiu um novo emprego e a mulher achou estranho ele estar há duas semanas numa empresa se ela o via todas as tardes num bar perto de onde trabalhava, às vezes só, outras com homens mulheres. Conseguiu duramente suportar não só esses seis meses, mas doze anos, o assistindo sair e voltar, simulando certa normalidade não só ao mundo, mas a si mesma, apanhando com mais frequência, mais forte e muitas vezes sem nem sequer abrir a boca, apanhando apenas porque talvez seja errado sair batendo nos outros na rua.
Ele passou a andar com as mulheres tranquilamente, como um adolescente, de mãos dadas na rua, de manhã tarde noite, dane-se a esposa, se vão contar o que vão contar, nessa altura do campeonato ele já havia se tocado, não tinha uma imbecil em casa, ela sabia de tudo, desde sempre ela sabia de tudo, mas ele também tinha seus segredinhos pra controlá-la, melhor dizendo: ela jamais faria qualquer coisa que colocasse seu futuro com suas crianças em risco. E no fundo, seu medo era esse: não de não ter pra onde ir, mas de ter que ir sozinha. Melhor escancarar tudo duma vez. (Imagino ele no bar, peito de pombo, ao lado dos amigos, contando que faz o que quiser e sua mulher respeita, não diz um piu, pois ele é o homem da casa e coisas assim). E escancarou. Tanto que numa noite qualquer, caminhando ao lado de sua “nova” namorada, foram avistados pelo ex-namorado da moça (tentando esquecer um vagabundo com outro, vejam só), que não se sentia ainda muito confortável como ex, e então correu lá cobrar satisfação, acho que bêbado, no que a moça o mandou embora, disse que acabou acabou, mas ele não deu trela, agarrou o braço dela pra levá-la sei lá pra onde, mas não deu tempo de arrastá-la, antes papai, o grande defensor das mulheres, alcançou seu nariz com um murro, e depois outro e outro, quando o rapaz caiu ele deu mais alguns, então se levantou, virou-se pra moça e disse vamos. Saíram andando, deram as costas ao rapaz, que se grudou no ápice de seu ódio cego pra buscar a última força e sair em disparada atrás dos dois, e nem precisou espancar ninguém. Tinha um canivete, menino esperto, que entrou tantas vezes em meu pai quanto tomou de socos minha mãe. Todas nas costas. Morreu devagarinho, deitado de bruços, enquanto o homem levava, aos pontapés, seu troféu pra casa.

Antes ela sorria, pulava a janela de madrugada pra fugir pros bailes, trabalhava na roça com a mãe e o time de irmãos, todos felizes, as fotos mostram uma menina cheia de vida, sempre os shorts sujos, sempre shorts, sorriso forçado cara de impaciência, quer correr não tirar foto, nem dos meninos perdia na queimada, ela se gaba até hoje, a melhor na matemática, levou todos os campeonatos de tabuada até a quarta-série, quando teve de deixar a escola. De onde moravam, a remota Nova Colúmbia, nem se conhecia outra escola, longe que fosse, pra dar continuidade, pois ali parou e dali não saiu, foi fazer crochê com a mãe [se tornou profissional] e trabalhar na roça, os meninos foram pros serviços mais pesados arrastados pelo pai, cada qual pro seu canto, todos na roça. Sair da escola consistia no ponto final da infância, os transformava automaticamente em adultos, crianças de doze anos, que eram duramente cobradas enquanto tal, tendo de estufar o peito pra vida quando só queriam subir em árvore. O pai muito rude, não permitia sequer que usasse seus shorts da “infância”. Criança sai da escola gente feita, talvez pensasse. Moça direita fica em casa ajudando a mãe e aprendendo a casar. Mas fica em casa entre aspas. Por mais severo que fosse o pai, confiava nos seus cegamente, ou confiasse mais em sua autoridade, pouco importa, nunca foi de ficar com os olhos em cima de ninguém, só gostava de dormir cedo, levantar no lusco-fusco pra ligar seu radinho AM (onde se ouvia mais chiado que música), acender seu cigarrinho de palha e só daí dar bom-dia, obrigando assim todos a se deitarem antes da noite também. Junto da adolescência começaram as fugas, um por vez, na mesma janela da cozinha, a única na casa que se podia abrir sem acordar a vizinhança, e como o gato dormia antes da noite e só acordava pouco antes do dia, os ratos aproveitavam. Eram vários irmãos, uns doze, descobrindo a vida juntos, bailes, festas, bares, amigos, brigas, beijos, alguns se casaram com as mesmas pessoas que conheceram nessas fugas, outros que iam se perdendo nos horários, o pai pegava e mandava pra rua, sem choro nem vela. Duas das meninas flagradas tentando pular de volta pra casa tiveram de sair fugidas pra casa dos namorados, formaram família filhos e hoje uma mora na capital e a outra morreu de câncer. Dos rapazes pegos, ao que parece, dois sumiram e um, o mais velho, pegou a namorada, o fusca do pai da moça e saíram em disparada, só parando numa árvore na esquina – erros de cálculo. O pai da menina, assustado com o barulho, era madrugada, saiu e viu a filha de frente o fusca arrebentado, árvore caída, olhando pro céu, pedindo a Deus uma solução um piano na cabeça, foi se aproximando lentamente, como quem desconfia se o que está vendo é realmente aquilo, até que sai do carro o rapaz, mancando e segurando um braço, olhando pra todas as direções ao mesmo tempo, perdido como num sonho, do jeitinho que o velho precisava, vivo e de pé. Apanhou com gosto. Toda a raiva da vida o velho deixou ali, moeu a cara do coitado e ainda fez questão de lhe torcer o braço bom. Depois se virou pra filha mas ela já estava longe, correu pra casa do menino avisar a família do ocorrido. A mãe quase morre do coração. O pai não estava em casa. Foi-se a mãe e mais uma porrada de filhos em desespero até a casa da moça, e continuava lá, estatelado na calçada o rapaz. O pai da menina de pé, ao lado (o que me faz pensar que talvez ele não quisesse arrebentar tanto assim o rapaz), avistou a família se aproximar e nos passos brutos em direção a casa se indignou apenas a dizer ou leva a menina, ou ela não tem pra onde ir, e se foi. Chegaram em casa o pai já havia voltado, fumava um cigarro encostado num tronco, e mesmo com toda sua autoridade de dono da casa, não pôde negar a ordem da mulher (a ordem duma mãe!) de voltar o filho pra dentro, e com a menina!.
E foi dessa garota que minha mãe se tornou amiga, cu e carça, como diz o interior. Compartilhavam segredos, a moça a ajudava a sair escondido, ficava vigiando, nem pro marido contava, e aprovou até quando ela gostou dum primo meio distante seu, apresentados numa festinha infantil num centro-comunitário(onde minha avó foi por muito tempo presidente) de Marília, cidade próxima. Se conheceram, e a partir de então, as fugas de mamãe deixaram de ser pra dançar e passaram a ser por ele, o primeiro grande amor, que ao menos uma vez na semana enfrentava um ônibus até a cidadezinha da amada. Por meses conseguiu enganar o pai, já estava até acostumada, horários de ida e volta nem olhava em relógio mais, se guiava pela intuição, quando num dia nem mais nem menos, sentada na sala mais a mãe fazendo crochê, sentiu do longe da cozinha o cheiro dum ovo na frigideira, e aquele cheiro de fritura lhe embrulhou o estômago numa velocidade que nem tempo de correr pro banheiro deu, vomitou ali mesmo, na sala ao lado do sofá, no exato instante em que uma irmã apontou na sala com um simples prato de arroz feijão e ovo. A mãe pegou no ar, isso vai dar problema quando seu pai descobrir, ela ainda tentou os clássicos “nossa, mãe, é só alguma coisa que eu comi, para com isso”, mas o tempo é cruel, sua barriga cresceu antes que encontrasse uma forma de contar ao pai, tanto o seu como o da criança, e usar camisas largas não ia ajudar pra sempre, logo estaria com uma lona de circo na mesa de jantar fingindo estar tudo normal. Nas confissões com a mulher do irmão, chegaram a conclusão de que o certo seria resolver no cru, sem poesia: a amiga foi até seu primo contar as novidades à família, e minha mãe foi dizer ao pai que seu tão esperado neto estava a caminho. O pai deu até de manhã pra ela sumir. Não gritou nem bateu, nem pra mulher reclamou. Até de manhã se bote pra fora daqui, e foi dormir. Minha mãe saiu, deu as costas e saiu. Passou dias no frio duma praça esperando o pai aparecer, ela havia saído com a certeza de que ele não permitiria isso por muito tempo. Foi encontrada numa tarde pela mãe, que a convenceu a aceitar o teto duma tia, e viveu ali duas semanas, até a mulher do seu irmão aparecer com a notícia de que seu primo estava desesperado pra vê-la. Assim que soube da notícia, conseguiu emprego como inspetor numa creche e uma casinha numa vila um tanto distante do centro da cidade, Marília, mas não tão do trabalho, e dentro de poucos dias estaria ali pra levá-la com ele. Aluguel baratinho. Tudo graças a mãe, por vários anos presidente do centro-comunitário do bairro, e com amizades na prefeitura, tinha sempre na manga um jeitinho pra conseguir desde prioridade na lista do prefeito até passar a gente na frente na fila do hospital. Herdara o apreço do pai, grande líder comunitário que ajudava a quem quer que fosse conseguir emprego, remédio, livros et cetera, assim reza a lenda. Enfim, foram morar na casa nova, juntos e felizes, como tanto esperaram. Ali nasceu meu irmão. Ele continuou firme no trabalho, comprou uma moto, até um cachorro levou pra casa, a cereja que faltava na família. Até que então, diz minha mãe, começou a desanimar, chegar cada dia mais cansado, não queria contar do dia, ouvir mais nada, a criança não podia chorar que já o irritava. Quando firmavam ali quase dois anos de vida juntos, ele chegou com uma conversa de que o dono da casa pediu a casa, depois mudou dizendo que na verdade o dono queria aumentar o aluguel o dobro, que assim não dá, se vai ser pra ficar pulando dum canto a outro o tempo todo, melhor a gente quietar naquela edícula no quintal da minha mãe, só até conseguir nossa casa.

E foram.

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