Táubua de tiro ao Álvaro

noutro dia mandei
uns versos e outras
prosas ao
poeta Álvaro Alves
de Faria,
aquele mesmo que
vive só
e
conversa
com passarinhos:
um dos últimos poetas

sobre meus originais
disse ter lido todos,
poemas
crônicas um
e outro conto perdido,
e aquilo me deu uma
raiva danada

muitíssimo educado
o poeta, disse ter gostado
são textos bem escritos
e arrematou
por que muitos textos estão apresentados em forma de poemas se não são poemas, são prosa?
não respondi,
o poeta não
entendeu
que não
dou a mínima,
são só versos
que doíam então
os tirei de mim

fui até o poeta
em busca de poesia,
eu queria
saber o que
ele faz na madrugada,
se bebe um litro de vodca
e ouve Nana Caymmi
até se afundar,
se sai pro quintal
de pau pra fora
acende um cigarro e
fica ali com seus versos
junto da noite
e pássaros,
se dorme no
chão ao lado da cama
ou num barril,
o barril que fora
preciso pra
conseguir apagar, o que
pensa em suas
caminhadas noturnas,
de manhã o primeiro cigarro
o que
significa,
há Deus naquela xícara de café?
o que é que pensa
enquanto lambe
uma mulher,
o quanto escreve
e por que sente tanto,
queria que me contasse
da solidão
ah a solidão, menino
queria conhecer sua
poesia,
aquele imenso abismo
que nos engole
a alma – a paz
onde nos metemos mais
fundo a cada estrofe,
quero saber o que faz
com ele, poeta
essa infindável agonia
que é nosso
oxigênio,
confesso não sei o que fazer
só sei que
sair deste lugar é morrer

e nada mais

poupe-me de meus poemas
eu devia ter dito
poupe-me, poeta,
puxe aí uma cadeira
e vire um trago,
me fale sobre o pior
da vida,
sem isso não haveria
a poesia, que só
é linda quanto
mais dói,
essa doença que nos traz
aqui aos versos
é bênção
queria vê-lo dizer
mas ele não
disse nada,
agradeceu
a confiança
e evaporou,
evaporou sem
explicar o
que acontece
dentro de mim
e de todos esses
que sem
a arte apodrecem,
por que buscamos a solidão, poeta?
e onde estão
os outros
se todos estamos só?

uma pessoa tão sem
poesia quanto você
e eu, não quis saber da lua
namorando o céu
o casal mais lindo,
as nuvens lá olhando tudo
e o poeta não disse
nada,
nem mandou o
passarinho me dizer
olá
olá, passarinho
eu teria dito,
e conversaríamos
ele me contaria
dos tempos cinzas
e também do
primeiro sol
da manhã pintando
o azul do céu
que merece eternidade
embora a pressa
nos tenha cegado
a alma

mergulhar em sua solidão

mesmo que isso possa
esmagá-lo

um poeta,
como a velha
história de João Gilberto
quando num consultório médico
olhando a paisagem
pela janela
se vira pra enfermeira
e diz: olha lá o vento descabelando
as árvores
mas árvores não têm cabelos, João
e há pessoas que não têm poesia

mas João não é poeta
é poesia crua

quem sabe tentasse,
desesperadamente,
salvar minha vida:
fuja da
poesia,
menino besta,
o quanto
antes

não há mais tempo, poeta, me estenda um cigarro.

7 comentários em “Táubua de tiro ao Álvaro

  1. Ah o poeta… O eterno poeta… É tão incrível ver como você retratou a essência do poeta, um ser que acima de tudo vê o mundo através de seu próprio olhar.
    Parabéns poeta, pelo texto rico da mais pura prosa e poesia.

    Curtido por 2 pessoas

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