Finalmente pax

Tenho de confessar que ainda reluto em falar sobre Geise. Essa coisa de amor é loucura. Primeiro não há o que dizer, as palavras bonitas já vêm sendo espremidas tal qual tubo de pasta em fim de mês há pelo menos desde a bíblia. Falam tanto que esvaziou a essência. Nada tão fácil quanto falar de amor, se quero mostrar o que sinto, digito no google um sentimento e pronto, te amo como as rosas do luar, o céu azul seus passarinhos, a onda do mar a lua ah quanto amor. O bilhetinho perdido na mochila com um mero gosto tanto de você se tornou relíquia. Queremos subir até a lua buscar chaveirinho no lado oculto, trazer como algodão doce um pedaço das nuvens, esconder no meio a aliança e ver o sorriso acontecer, dar volta ao mundo num sei lá o que, enfrentar guerras tragédias se preciso for, por nosso amor, mato e morro e volto pra te proteger, cantar as canções mais belas, feitas pra nós. Mas daí vai-se um mês e não queremos mais nada. Acabou-se o amor, cada um busca sua turminha novos amores e vamos embora, a vida é isso aí, amar amar e amar. Amanhã cruzamos com um novo alguém, novas experiências, a vida continua, vá lá. Pra começo, e disso esquecemos de deixar claro a nossos filhotes: o amor é uma puta. Não uma puta triste, daquelas que transam de cara feia com a gente, que depois que gozamos se levantam pegam o dinheiro e saem com o mesmo ar de indiferença duma camareira dando a última arrumada nos quartos antes de ir pra casa. O amor é a puta de luxo que você se apaixona e quer tirar dessa vida, mas não existe essa vida, ela não tem de onde sair, vive como quer, mora onde quer, transa com quem quer, e pagam muito bem, ela não tem do que reclamar e você a ama e quer ela só pra você, já não sabe o que fazer, só ama, e amanhã ama mais, e depois mais, até que ela resolve ser sua, só sua, não será de mais ninguém, mas não vai largar o trabalho e deixa claro de antemão, você terá seus horários como os clientes têm os deles, mas você a ama, sente naquilo uma apunhalada, mas aceita, você a ama e então aceita, não importa mais nada, se vão dizer ou não, o que vão dizer, só importa estar com ela [mesmo nas horinhas previamente estipuladas – um dia ela vai envelhecer], eis o amor. Amar é pra idiotas, definitivamente, viver em fogão fazendo comida atrás de comida, aguentar marmanjo mijando fora do vaso, cueca cagada, toalha molhada na cama, calça suja no chão do quarto, uma e outra guimba de cigarro pelo quintal, lençóis e cobertas e panos e camisetas e bermudas cheirando a podre, pior, com furos de cigarro, sem contar a fumaça que mata à distância, e o infeliz ainda usa essas bermudas pra sair, pega um havaianas sem cor, pega uma camiseta qualquer, do Corinthians ou Barcelona, e acha que está abalando, quer ir na padaria casamento velório igualzinho como sai cedo pra tirar o lixo, acorde e vamos, e alguém precisa lavar tudo isso depois [alguém que muitas vezes também trabalha o dia todo e só quer sossego na volta], desde as cuecas meias até uniformes de trabalho de futebol e aqueles lençóis de cama e fronhas tudo fedendo a suor, o que dificilmente será tarefa dele, pois o máximo que ele faz, com muito custo, é lavar uma louça e ainda com a proeza de deixar tudo cheio de sabão e gordura ao mesmo tempo, varrer aqui e ali reclamando, um arroz cru e sem tempero e dar banho no cachorro vez em quando. Isso é amor, quase um castigo, mas amor não é escolha, e então você faz, lava todos os dias as mesmas cuecas com merda, as meias com aroma de rosas, a capa do sofá queimada de cigarro, a louça suja e também a da noite anterior que o tonto do seu marido pensa que limpou, varre as bitucas do quintal, limpa as gotas de xixi que respingam, faz almoço janta almoço janta almoço janta, e grita, claro, ninguém ama sorrindo, o amor grita, xinga, esfrega na cara o trabalho dum dia inteiro pro filho duma égua entrar na cozinha molhada sem sequer tirar os sapatos sujos da rua antes, mas você não atira nele, você xinga, ele volta bem devagarinho como rebobinando a merda que fez, vai pro quarto tirar os sapatos mas sua voz chega primeiro, vê se não vai largar tudo pela casa que ninguém tem empregada aqui não, e vocês se amam. Logo você quer sair mas é o dia do futebol, e sem te dar o menor valor ele vai pro futebol, ele bravo você brava, chega lá dizendo que a mulher só enche os pacovás, nem bem chega do trabalho só gritaria, não pode sair pra esquina que já vira briga, mas quando o futebol termina a primeira mensagem que envia, amor tô indo, e ela está brava, ele sabe disso, muito brava, acabou de trocar um jantar fora um cinema a sós pra correr atrás de bola e apanhar de tonto, e agora precisa ir embora tentar reverter o silêncio ensurdecedor que o espera, então chega de mansinho, vai se achegando ao lado dela, ela finge que dorme mas não pregaria os olhos nunca mais se ele não voltasse, sai vai lá com seus amigos me deixa dormir em paz, ele vai banhar e esquentar a comida pronta no microondas, ela queria que ele insistisse mais, mas ele aceita justamente por medo dum murro se insistisse, come e volta pro quarto, dá boa noite te amo dorme bem, silêncio, mas ela está acordada e também o ama, até amanhã.

Não sei por que dei tanta volta, preciso parar com a maconha e ler mais, o que eu quero dizer é que há muito desisti de gostar da Geise. Não muito muito, mas já tem um tempo. Não foi também aquela desistência assim, digamos, com convicção. Só desisti. E é exatamente o processo de desistir que me traz a dizer o que der na telha. Desisti pois não tenho nada a acrescentar em sua vida, comparando as diferenças, ao mesmo tempo que ela entra numa congregação cristã, uma das igrejas que possui o discurso mais rígido entre os cristãos (não se pega na mão da mulher, vestido acima do joelho só pra tomar banho, boné te esconde de Deus, beijo só o santo ósculo, e ai dela se esquecer o véu, mas não vou ficar de piadinhas, como disse, não desisti tanto assim, e vai que ela desiste de vez – se já não o fez), eu toco fogo num beck tão bonito que por aqui denominamos dedão de gorila. Ela é toda bondade, puramente criança, tanto que nem cresceu, vive gigante em seus um metro e meio, um pacote família de doritos quase, tirando o cheiro. Seu riso sim! tem três quilômetros, em cada casa do bairro se pode ouvir os ecos de suas gargalhadas, ri e fala alto e sem vergonha, tudo o que mais me irrita num ônibus ou metrô ou mesmo em casa onde for, tentar ler um livro ver qualquer coisa, esperando do silêncio sempre mais silêncio, quando só se ouve gritaria, você fica quatro horas na mesma página e a única coisa que entende é o barulho das doidas ao lado, não escuta palavra, nem elas parecem se entender, é só palavra em cima de palavra cada uma contando uma história completamente sem nexo com o que diz a outra e tome HAHAHAHAHA. Mas nela eu gosto, acho lindo ela rir berrando, já me imagino gritando do outro quarto para de gritar eu tô tentando ler aqui, meu, mas vou achar estranho se acaso ela realmente se calar, não é pra calar, é só um modo de me lembrar que ela está lá, no outro cômodo e morando comigo, algo como se beliscar pra provar a si não estar sonhando, mas não vou dizer nada, se ela se calar vou apenas virar a página e enfim entender o que leio, mas vai durar pouco, está faltando algo, algo que só o riso louco dela pode suprir, e dali algumas páginas já me vejo odiando esse silêncio, esperando a gritaria [das doidas] que antes chegava da sala e que agora me arrependo por ter atrapalhado, também não vou dizer nada, como devia não ter dito desde o início, melhor deixar como está e virar outra página. Da sua família não posso falar. A começar por sua mãe (numa virada-de-ano, bêbado, disse a ela o quanto gosto de sua filha, nunca tinha dito a ninguém, ela me disse ser recíproco, e ainda bolou com uns amigos um jeito de ficarmos Geise e eu a sós sem seu pai nos flagrar, mas eu estava muito bêbado e pra ela foi terrível, coitada, pra mim foi o melhor momento de uma vida, só não lembro muito), você nunca vai encontrar alguém que anime um churrasco feito ela, conversa de qualquer coisa ri de tudo, não deixa o copo de ninguém vazio e ainda dança com todo mundo, dança sozinha, chama pra dançar, ficar parado é que não deixa, e ir embora antes do amanhecer é pecado. Um dia me disseram ser inevitável, as filhas sempre se tornam um espelho das mães: tomara. Uma pena que já não goste tanto de mim depois de descobrir o que fumo, embora isso seja apenas um chute. Até hoje, tirando a minha, nenhuma outra mãe havia gostado de mim (tive uma namorada que morava com a avó, e essa avó ia tanto com a minha cara que nem carregar o celular em sua casa ela deixava, ele que vá gastar energia da casa dele, um doce de velha). Seu pai é Jesus, além de serralheiro a cara do sr. Madruga. Bebe com qualquer um, basta chegar pedir um copo e sentar. Noutro dia, aniversário de sei lá quem na família, uns meninos brincando na rua colocaram rojão numa garrafa que estourou duma vez o para-brisa do seu Passat 78, coisa assim. Mas Jesus não mandou ninguém tomar no cu, não espancou os meninos nem estourou rojão neles (algo que eu faria), cedeu a outra face, pagou o conserto do carro e não estacionou mais na rua, ficou com uma raiva danada, quem não ficaria, mas nada de problemas, larga isso aí depois vê, o imagino a dizer antes de voltar pro seu cantinho, e quiçá hoje até encontre alguma graça na coisa toda, depois da cagada pronta só nos resta desprezar a vida e rir. Não seria difícil manter uma relação legal entre sogro e genro com ele. Voltando pra Geise, também é preciso deixar nas vistas algo mais concreto, o simples pés no chão, mesmo que aqui eu não quisesse chegar: estamos falando dum pé-rapado, inteiro amargo[imagine com noventa anos], um maconheiro que nem onde cair morto tem, meu carro é um havaianas, meus tênis e roupas novas todos têm páginas, não lembro a última vez que saí duma loja com sacolas ou que entrei numa loja de roupas. Eu compro livros, não penso na Geise. Se pensasse estaria me esforçando pra chegar a ela, falo de condução, um boné com menos de três anos de uso, sapatos razoavelmente aceitáveis e limpos, cortaria o cabelo com alguma frequência, estaria cursando algo que nos levasse a um futuro, teria como primeiro degrau a vida que ela tem, não a minha, pois é subindo que chego até ela, e estando longe do primeiro degrau, me resta nada além de continuar subindo, e subir até chegar ao começo, pra evitar arrastá-la pra minha vida debaixo da escada, onde gosto de estar e não pretendo sair, fazendo-a recuar por alguém que nem a maconha pretende largar por ela, ou voltar à igreja, pular cantar ser feliz, que seja. Se quiser só olhar as estrelas e ficar conversando até dar frio estamos aí. Não se trata de depressão, se quer me levar onde for, diga você vai!, não me dê opção, do contrário vou abrir um livro e dizer vai com Deus [em especial agora quando estou mergulhado num Hobsbawm, morte alguma me tira de casa – pouquíssimas, aliás], e já vejo começar a mesma briga de centenas de anos, com ela dizendo que não ligo pra nada, não quero nada com ela, que tenho vergonha de andar com ela, nem ela eu amo, não provo meu amor et cetera et cetera, e daí pra não ter dor de cabeça com essas coisas, desde já eu desisto. Não se muda o ser-humano (advogando em causa própria). No primeiro momento de distração voltamos a ser o que somos. E não é pelo chorar, sem vitimismos, não tenham dó, ou tenham, pode ter, ema ema ema, mas o que sou não faz ninguém feliz.

Aqui abro um espacinho pra esquecer da poesia: talvez não seja amor, todas as desculpas talvez sejam apenas isso: eu não te amo, se amasse não escreveria tanto, bateria palmas na sua casa até você casar comigo. Mas isso não vai acontecer, nós sabemos, só o que vai acontecer é eu terminar este texto com a sensação de que algo está faltando.

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