O céu sem poesia é só ciência. O homem também.

Outro dia levei a Lua pra passear, Lua minha salsichinha, como de costume fazemos. Atravessamos um quarteirão e sentamos na mesma praça de sempre, nada anormal. A praça que não é mais praça, agora é um monte de mato com uns tantos bancos também se afundando no mato, ao lado do que um dia foi uma enorme quadra de bocha. Lembro-me que aos domingos chovia aposentados dum canto ao outro, verdadeiros adolescentes, levavam seus canários, filhos, netos, alguns mulheres, e travavam batalhas que só a noite tinha o poder de dar um fim. Tinha também um pequeno quiosque de lanches, do Reginaldo, Edinaldo, Aguinaldo coisa assim, que não deixava a praça se assentar no silêncio da noite. Contava com um vasto público, deveras diversificado: das nove dez à meia-noite uma da madrugada, em suas cadeirinhas de mesa de bar só se sentavam bundas de namorados, tios e tias, os que moravam de frente pra praça, mas esses não eram tantos. O dia começava pra valer depois das três. Reginaldo, Aguinaldo, dane-se, o dono era um homem gordo, aliás, barrigudo. Não tinha braços nem pernas correspondentes. Só barriga. Mas como dizem, um homem sem barriga não tem história. Já meio velho, vamos lá, uns cinquenta e tantos. Bigodão respeitável, quase tapando a boca, com seus últimos fios pretos lutando até o fim pela vida. Um homem bom, a depender da sua classificação de bom. Histórias pululam, desde pequenos favores como emprestar o banheiro pros rapazes usarem seu pó na madrugada, até maiores como ir pra casa dormir e deixar o espaço na mão dum bando de loucos cheirados. Pediu pra não venderem nada nem consumirem. Vamos fingir que ninguém pegou ali uma cerveja um cigarro. Quando voltou tinha um corpo no banheiro. Um conhecido diz que no meio duma turma apertada de frente a pia, um maluco cheirou a carreira de outro, que já mordendo a testa, viu aquilo como uma afronta maior que bater na mãe, rápido empurrou o rapaz que tropicou no pé dum outro e deu com a cabeça na quina da privada. Entrou em convulsão, começou a se debater ali(detalhes de gente babando não convém), não sei se simplesmente fecharam a porta com o rapaz dentro e foram se divertir, se fugiram ou se fecharam a porta e foram chupar sorvete. Por algum motivo fecharam a porta e o coitado morreu. Isso é tudo quanto podemos afirmar, pois todas as versões começam com a mesma: quando ele chegou lá de manhã, abriu a porta… Também podemos dizer que a chave fora, de alguma maneira e em algum momento, devolvida, mas nem isso com certeza, pois qualquer macaco consegue entender a importância duma chave reserva. O resultado de tudo isso é que o bairro todo sabe quem são e quem morreu, ninguém jamais vai abrir a boca, imagine eu. Não houve investigação, não me diga. (A mãe do morto, dezesseis anos, tempos depois, sentada ao lado de minha mãe na igreja, confidenciou que chamou a polícia desde logo após amanhecer, pois seu juninho nunca chegou de manhã [chegava tarde, nunca dia, treinava futebol de manhãzinha e não faltava per niente, esperou acordada e nada do menino], foram até o local [por conta de Reginaldo, já estavam lá dois deles], viram a cena do crime digna do filme jogos mortais, conversaram com o dono, que só disse ter deixado o quiosque na mão de uns conhecidos pois passou mal, e então deduziram uma overdose no automático, não havia o que fazer, disseram, a culpa é do drogado do seu filho, minha senhora, mas isso eles não disseram, mandaram ela ir pra casa e se acalmar, depois de ver o filho morto nada melhor que uma refrescante água com açúcar). Claro que eles podem ter investigado direto da delegacia, ou de casa, nunca se sabe, essa modernidade é uma loucura. Duas semanas. Qualquer um que passasse por ali veria uns homens enormes saindo dum caminhão, armados de marretas martelos essas ferramentas todas, desceram o pau em tudo, não precisaram de três manhãs pra dar sumiço naquela montanha de entulho. Não sobrou resquício. Caminhava eu, em direção ao mercado, quando vi a primeira das sei lá quantas caçambas [ou viagens] sumindo na esquina. Não sei, sinceramente, por que destruíram junto o campinho de bocha, talvez alguém tenha morrido nele também. Nunca mais cortaram o mato, Reginaldo era o bom homem que pagava pra cortarem. Aos olhos da prefeitura, o restante da praça nada mais é que o quintal do quiosque. O dono que se vire. Ironicamente, o entulho da quadra de bocha deixaram, poxa, Reginaldo. Vá lá ver, ainda está lá, quer o nome da praça? Planalto, pracinha do Planalto(Jardim Planalto como quiserem). Hoje uso o resto de entulho, um pedaço grande de tijolo, como banquinho quando passeio com a Lua. Os bancos da praça pra achá-los naquele matagal só procurando, mas como a polícia não investiga nada, já deixo sempre no mesmo cantinho um banquinho pronto, fico brigando com as formigas que insistem que meu pé é caminho, mas mesmo sendo nada fora um enorme tufo de mato, ainda é o único lugar onde se consegue tomar um ar e queimar um sem atrapalhar o ar de outrem, ou sem atrapalhar muito. A Lua também aproveita, não pode andar dentro mas pode ao redor, e andar é o que importa.

Foi num dia assim, com a Lua do lado, no mesmo banquinho de sempre, erva defumando o lugar, paz em fumaça, conheci Jonatas, ou Jô. Apareceu de repente, cigarro aceso, deu boa-noite, elogiou a Lua, a lua, tirou uma cerveja do bolso e sentou, óbvio, antes buscou também seu banquinho. Nunca o tinha visto. Começou com o velho papo do tempo, ah que calor esse calor, eu também estou cheio de feridas de pernilongo na perna. Disse que precisava sair de casa, estava com a cabeça em guerra. Pediu duas cervejas fiado no bar da esquina, na conta do pessoal lá de casa, e saiu caminhando vila adentro. Cabelo amarrado pra trás, barba por fazer aniversário quase, vinte vinte e cinco anos, no muito. Do que me disse, verdade ou mentira, escrevo rap, até na TV Marília apareceu. Mas ninguém viu, pra quem não sabe, a TV Marília não pega em Marília, só assinando TV à cabo. E só um idiota vai pagar duzentos reais no mês [num pacote com cento e tantos canais] pra ver gente cozinhando ovo e dando dicas de como dobrar uma camisa com perfeição, ainda com a imagem e som desconexos, a boca mexe mas o som só sai vinte segundos depois, é um castigo pagar por isso. Contou alguns momentos em que mostrou seu rap aos outros e conquistou aplausos e olhares surpresos. E a vida? Não sirvo pra trabalhar, pessoal me arruma emprego, fico duas semanas pego uma grana, viro a noite cheirado e não volto mais. Gostei da ênfase que deu na facilidade com que consegue [perder] trabalho. Meu tio me arruma vários, garçon, ajudante num mercadinho dum amigo, às vezes ajudo ele num carreto, ele faz carreto, daí citou três quatro pessoas que já lhe ajudaram nisso, e então voltou ao seu assunto, a música. Meu negócio é escrever, não tenho disciplina, eu falo de amor, só não consigo ir pra frente. Interessante. Dei o exemplo dum amigo, brilhante autor de mangás essas coisas, que recentemente pirou e resolveu cair no mundo, vivendo de malabares e dormindo onde der sono. Conheço alguns, citou um argentino que atravessou meio Brasil por uma menina daqui, se conheceram via internet, a moça provavelmente estudava espanhol e só queria alguém pra treinar, enfim, demorou mas a encontrou, queria fazer surpresa, ambos se surpreenderam: foi ignorado, ela ficou falando que não conhecia aquele maluco, o pai endoidou, ainda ameaçou matá-lo na pancada se aparecesse de novo, e então? Foi morar na rua juntar dinheiro pra voltar. Tenho mesmo é inveja, queria ter essa coragem de largar tudo e abraçar o mundo. Eu também. Conversamos sobre como as pessoas tratam os mendigos, ninguém dá um simples bom-dia como vai? negam moedas com a desculpa de que o vagabundo vai beber usar droga, seja como for, foda-se, é um ser-humano, e se você, enquanto semelhante, não reconhece no outro o direito de gastar o dinheiro dele da forma que quiser, então é melhor enfiar tudo no rabo mesmo. (faça um exercício: sua vida está arruinada, só te resta três reais e a calça que usa, vai um corote ou uma água com gás?). Tantas campanhas de sustente-ongs-viagens-primeira-classe-hotel-cinco-estrelas-tudo-menos-mendigo só serviram pra afagar a falsa consciência dos imbecís, que até comida passam a negar (claro, é obrigação do Estado cuidar do faminto, não do próprio ser-humano), e afundar mais um coitado que, nitidamente, não tem forças pra sair do lugar. Resolvido: ninguém precisa prestar atenção em loucos largados por aí, e ainda podemos, com a alma leve, criticar o governo que não faz nada pra ajudar, enquanto nós, veneráveis cidadãos, pagamos nossos impostos e vira e mexe doamos cinco reais pra ativista dormir até mais tarde. (Quem dá ao pobre empresta a Deus). Se as pessoas soubessem quanto poder mora num fala, amigão, bom dia, economizariam não só com ongs como também com todo esse falatório do vagabundo-que-não-quer-trabalhar, a cada minuto teríamos um mendigo a menos largando a vida ao acaso e você poderia continuar atravessando a rua normalmente, só que agora sem fingir que não vê ninguém. Jô então falou sobre seu violão, talvez o que realmente o afligia. Uma semana antes cheirou o violão, agora estava cheio de rimas culpa e o pó acabou. Bateu a depressão. Senti que devia dizer algo, o olhar do rapaz vidrado no horizonte suplicava qualquer palavra de consolo. Não hesitei, respondi no ato: acontece. Começou a balbuciar sobre Deus, desistiu da igreja pois não se sentia bem ali dentro, se sentia julgado a cada olhar, então enfiou na cabeça que Deus o quer assim, e achou melhor se conformar onde estava. Depois se levantou, disse que ia mijar nalgum canto. Também me levantei. Já está ficando tarde, melhor eu chegar pra casa. Então, beleza, vou descer também. Caminhamos juntos uma quadra. Eu viro por aqui, moro na próxima esquina. Apertamos as mãos. Me chamo André. Eu sou Jonatas, mas todos me conhecem por Jô. Até qualquer hora. Falou

Anúncios

5 comentários em “O céu sem poesia é só ciência. O homem também.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s