Ivan o Corcundão a solidão que eu fumei e um abraço pra São Sebastião

Não há nada pior que as lembranças dos amigos. A gente vai lembrando vai rindo e quando vê está triste feito um burro, e que burrico triste. Há quem chame essas coisas de nostalgia, quiçá saudade, eu prefiro puta-que-pariu-de-novo-não. Você ali, tranquilo, Luiz Melodia no rádio baseado entre os dedos. Baleiro, Macalé, Lenine, Ben, Donato, todo mundo ali, como há de ser, e então sem mais nem menos te dá na cabeça aquele imbecil que sumiu tem uns trinta anos. Aquela mistura de fumaça e música vai te levando por entre as memórias, folheando-as como numa livraria, um sonho acordado feito de Gilberto Gil maconha e solidão. A verdadeira fórmula mágica da paz, se não fosse preciso uma cabeça cheia de encrencas dúvidas medos e muita preguiça pra misturar tudo isso. Por fim, nos últimos tragos de vida da pontinha, pra fechar com chave de ouro, como quem não tem nada com isso, você se encasqueta: onde será que foi parar aquele vagabundo?

Na última vez que o vimos(eu não o vi) estava subindo num ônibus pra qualquer lugar, jurando só parar na Bolívia. De Marília ao infinito e além. Contam que chegou no Mato Grosso -acho que- do Sul, encheu a cabeça de dreads, e por ali deu um tempo, dormindo onde ninguém passa e vivendo de malabares no sinal. Talvez nem quisesse chegar na Bolívia, só quisesse ter um lugar pra ir. Não importa. Daí mais não se sabe. Eu próprio já não o via há mais de um ano, mesmo sendo nós amigos de infância e morando um bairro de distância. O último contato que tentou comigo aconteceu numa véspera de natal, apareceu lá em casa tarde da noite, daí ficou chamando chamando. Eu já tinha desistido dessa coisa de amigos e só fiz o que achei mais sensato: virei pro outro lado, escutando. Antes de ir ainda gritou FELIZ NATAL AÍ. Ele sabia que eu o ignorava, já não era a primeira vez, nem a segunda ou décima. Mas eu também sabia que ele sabia, então pensei tudo bem, virei mais uma vez e fechei os olhos.

Lendas rezam que dar tapas na corcunda do Corcundão traz sorte. Nunda deu. Nunca diretamente. Sorte era quando os tapas viravam murros que deixavam o coitado inteiro torto na calçada, aí sim, nos sentíamos os maiores sortudos do mundo vendo aquilo, rindo e rindo. Nem era preciso tanta violência, na verdade, qualquer tapa ardido já nos fazia a alegria. Ivan chegava, com seus passos de tartaruga, na mais crua paz, boné pra trás, cumprimentando um a um, mão a mão, com seus dois metros e o queixo quase no joelho, quando dalí instantinho PLAU PLAU PLAU(pois eram três tapas o segredo pra alcançar a sorte suprema). Gol do Brasil. A explosão. Ríamos de mijar, aquela corcunda enorme com suas passadas de Dhalsim correndo atrás do infeliz, com o queixo quase ralando no chão: corre dá três passos para pra estalar as costas. Era rir de não conseguir segurar nem peido. Não acontecia sempre. Quase nunca, na verdade, um simples impulso nascido no silêncio, sem aviso prévio sem pensar, é o tonto virar as costas distraído e então pronto, antes de cair a ficha olha você lá, virando a esquina igual um vulto, aquela corcundona com suas passadas largas porém em supercâmera-lenta tentando alcançá-lo, nós na outra esquina enlouquecendo de rir, eis a sorte. É preciso sorte pra estar presente, e o simples fato de estar presente conta muito na hora de rir(algo como se, bem lá no fundo, um bichinho na sua alma, todo orgulhoso, peito estufado, cantasse, das profundezas pro restante da humanidade: lero-lero eu estava lá e você na-ão).

Numa noite qualquer sem ter o que fazer, segunda ou terça-feira, já se iam umas uma ou duas da madrugada, tivemos a ideia genial de ir atrás de puta. Hoje o Ivanzão perde o cabaço. Calçamos os chinelos e saímos por aí. Tínhamos trinta reais no bolso e nenhuma noção de onde ir. Não conhecíamos o mais sujo buraco pruma foda barata de dez segundos num canto de muro que fosse. Conhecíamos lugares onde conseguir sexo fácil, mas com essas mulheres não conversávamos, éramos cabaços. Então saímos caminhando madrugada adentro. Chegamos ao centro da cidade passava das três, ou era quase três. Andamos andamos andamos, sobe rua desce rua vira daqui vira lá sobe outra vai vem, não encontramos nada além dum carro aparentemente sem dono batido num poste de frente com uma delegacia [isso que é sorte]. Nem rastro de puta. Ou de não-puta. Parecia que havíamos esquecido que hoje é dia de ser arrebatado. Quando finalmente, descendo uma avenida que já havíamos subido e descido umas três vezes, demos de frente com um travesti numa esquina. Era enorme. Gordo. Uns braços gigantes. Tinha uma belíssima barba por fazer (uma semaninha, no muito) e usava um vestido curtíssimo numas pernas tão peludas como um urso, e uma peruca bem bonitinha, cabelos pretos bastante lisos franjinha, talvez caíssem melhor numa asiática baixinha, ou talvez fossem de uma, mas eram lindos. Devia ter um pau descomunal. Passamos direto. Já beirava cinco da manhã. A hora dos velhos morrerem: o lusco-fusco. Tentamos ainda manter viva alguma esperança mas alguns giros em circulo depois, suados como dois pedreiros em fim de tarde, com as pernas bambas, andando torto e triste, só nos restou o –viva Nelson Rodrigues– óbvio ululante: não encontraríamos nada, era hora de voltar. Começamos nossa caminhada de volta, exauridos, trêmulos, famintos, dormindo em pé, mas ao virar na primeira avenida que nos deixaria numa outra avenida onde esperávamos encontrar ao menos uma loja de conveniência dum posto 24h que havia por ali, lá continuava ela, coisa do destino, impassível, forte como um touro, nossa bela donzela com seus negros cabelos orientais. Pensamos em passar direto novamente, mas a essa altura do campeonato nem a própria moça nos deixaria escapar assim fácil. Também não tínhamos mais tanto a perder. Súbito, com passos os mais firmes, em silêncio, tentamos fingir que sabíamos onde estávamos indo. Em vão.

– oi gatos, procuram diversão?(interessante o menor esforço em parecer sexy, mulher ou sei lá, parecia aquilo mais um bico, um job, terminou o expediente no trabalho e foi dar o rabo).
Paramos, ainda havia um plano.
– por acaso você conhece um lugar com meninas meninas mesmo?
Um gentleman esse Ivan. A Moça sorriu.
– vocês não se interessam em coisas novas?
– não, obrigado(pois é muito importante ser educado), só mulher.
Não sei o que é que deu na minha cabeça.
– porra(mas foi um porra baixinho, daqueles que soam mais como um ), por favor, dá uma ajuda pra gente, tâmo andando a madrugada toda, você é a primeira alma que dá na frente, diz aí onde tem mulher(isso foi quase uma oração).
– dez reais o boquete, vai, rapidinho, meninos, ninguém precisa saber, um de cada vez, bem ali no cantinho.
Nos sobraria ainda dez reais pruma conveniência 24h, ou seja: duas nikito e o refri. Pensei no monstro que devia morar debaixo daquela saia. De repente vira um velho(vejam como Deus realmente escreve certo por linhas tortas), um velho! simplesmente virou, brotou ali, blusa de moletom, bermudinha do guga, respiração apressada. Deu bom-dia e continuou sua caminhada, leve. Demos as costas ao coitado do travesti como o diabo corre da cruz, sem cogitar olhar pra trás(até hoje não olho pra trás na rua com medo de ver aquele velho me apontando), na vã tentativa de ignorar o que acabara de acontecer. Sóbrios. Ninguém ousou dizer palavra. Retomamos nosso caminho, completamente humilhados.

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8 comentários em “Ivan o Corcundão a solidão que eu fumei e um abraço pra São Sebastião

  1. Sei como é isso. O Tempo cuida de suavizar os socos que, infantilmente, trocamos com os “parça”; inocentar as trairagens alheias e de tornar menos tapados aqueles tontos dos quais tirávamos um sarro.

    Eu, dia desses, me lembrei da noite em que, na frente do baile, em 1996, comendo um dog, fiz um bebum pensar que havia uma câmera da Pegadinha do Faustão. A galera toda rindo, e ele chorando de saudade da mãe, pensando mesmo que ela o iria assistir no Domingão do Faustão.

    Aí, pensamos: tudo passa, nada fica de pé. Até o pinguelo, um dia, decide se aposentar. Até lá, só à espreita. Só continua o mesmo esse tédio gostoso das tardes de domingo.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Kkk o que eu não daria pra ver essa cena. É por isso que acho que temos a obrigação de eternizar essa vida: logo morremos, ou pior, ficamos aí em vida esquecidos do que fomos. O único eterno que temos é mesmo a arte. Grande abraço

      Curtido por 3 pessoas

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