Meu tio trotskista e [a galinha d]o partido

Meu tio foi o primeiro comunista da minha vida. Ou quase. Sendo o mais velho dos dois irmãos, se viu adulto antes mesmo das bicicletas e do spider-man. O pai morreu bem cedo, em diversos sentidos: jovem, quase de manhãzinha e com dois filhos miúdos. Morreu como quis: bêbado, na madrugada e depois da putaria. Na volta pra casa, tropicou nos trilhos do trem e então decidiu que era hora de dormir, até que veio o trem e nele (pra nos poupar de detalhes dispensáveis). Escola deixou de ser hipótese na medida em que a herança do pai se resumiu aos restos duma moto destruída noutra noite cheia de vida, uma penca de dívidas e uma avó que achou de bom-tom enterrar tudo na nora, mãe de seus netos, que mesmo com as pancadas vez ou outra [e outra e outra e outra e outra], e as tantas fanfarronices do marido, aprendeu a nada esperar até ver os filhos criados. Morando de favor nos fundos da casa da sogra e sendo tratada como um câncer, largou tudo pra trás e se enfiou madrugada adentro pelo mundo com seus dois guarda-costas [oito e quatro anos de idade]. Foi limpar privada de gente que não faz outra coisa que não cagar. Alugaram uma casinha aqui outra ali, o maior pipocando pela escola, o dia todo chutando bola na educação física alheia pra não enfrentar a física física da professora Ester, que além de falar devagar quase parando ainda escrevia em japonês [nada que não sentisse também nas outras aulas], enquanto a mãe arrastava o menor de faxina em faxina até brotar uma vaga na única creche com distância menor que as botas de Judas. Largou esse negócio de escola quando deu conta de que já sabia ler mais ou menos, contar o troco, o resto dá-se um jeito, estava no auge de seus quatorze anos, queria era chegar em casa com algum dinheirinho e não com uma penca de folhas quase tudo em grego e com fome. Começou vendendo morangos pruma velha perto da escola pela manhã e entregando panfletos de supermercado até de noitinha. Conseguiu emprego no supermercado do panfleto, empacotador. Durou dois meses, foi pego pela filha do gerente que por vezes dava de almoçar assistindo as câmeras do escritório do pai quando das reuniões escolares, e estranhou aquele menino entrando no banheiro carregando um pacotão de cookies. A casa veio desmoronar a valer dois dias depois, enquanto saboreava um diamante negro do pequenininho. Ouviu as batidas furiosas pra sair imediatamente [nunca recebeu os devidos parabéns por ter conseguido durante dois meses tal feito sem precisar do menor esforço, somente escolhia o lanche e subia tranquilamente as escadas], porém não se abateu, deu descarga no vaso lentamente, respirou fundo e pensou pronto, agora vai e abriu a porta puto da vida, batendo tudo, fingiu toda uma indignação com as ofensas do gerente, indignação que durou os quatro segundos da descarga que fora preciso pra bendita embalagem emergir do fundo da privada, sorrindo. Não contou nada em casa, nem podia, continuou saindo todas as manhãs rumo aos morangos e todas as tardes ao mercado – na cabeça da mãe. A verdade é que depois dos morangos seu mercado já envolvia um trinta e oito quase tão bom quanto uma pistolinha d’água, que comprou dum craqueiro qualquer na quebrada, e dinheiro de madame que recusava dar esmola, só as que recusavam a esmola. Nunca precisou apertar o gatilho, pois ficava com o cu na mão de pensar naquele negócio falhando justo na folga dum policial qualquer e acabar com uma bala nas costas. Não demorou tanto. Aos dezessete toma seu primeiro tiro, numa manifestação em frente a prefeitura da cidade, contra a derrubada da única creche do bairro (umas três na cidade) pra construção dum “sei-lá-o-quê-educacional para toda a região”, que terminou num belíssimo motel de nóia. Se voltou contra um dos policiais posto ali por prevenção, e recebendo de resposta aos apelos pra se revoltar com tamanha desfaçatez contra os pais e mães que a partir dalí teriam de enfiar os filhos no rabo pra poder trabalhar, apenas um absoluto desprezo, cuspiu em sua cara seu melhor catarro, e que catarro lindo. O policial, que é mais a favor de engolir, se jogou em cima do rapaz, sacou a arma e deu-lhe um na cintura que o derrubou de morte, mas sem poupá-lo de uns tantos dias urrando em cima dum colchonete num corredor qualquer. O PM alegou que “o marginal cuspiu em meus olhos e enfiou as mãos no bolso, e sem saber o que se seguiria, me atirei em cima do vagabundo e me vi sem outra opção“, e ao fim do expediente [saiu pra tomar uma pra compensar o dia cheio?] voltou pra família. Meu tio, coitado, não se exilou na URSS nem foi à China Cuba ou Nicarágua ou sequer soube resquícios dum Vietnã; não chorou num show do Chico; não leu violentamente Marx e Lenin nem escreveu manifestos contra Stalin; nunca conheceu Marighella Prestes ou Câmara Ferreira ou mesmo a heroína Olga; não tatuou a foice e o martelo na testa nem se sabe se algum dia ouviu e pronunciou a palavra comunismo. Sua maior proximidade com o partido se resumia a uma galinha meio amarelada de nome Rosa, herdada do último inquilino da casa, que tiveram de comer quando o menor [por acaso meu pai] deu em cima dela com bicicleta e tudo ralou joelho boca um imbecil (a galinha permaneceu intacta), e daí pegou trauma(?), não conseguia mais chegar perto da galinha, sair e voltar tinha de ter lá um outro tonto pra segurar a coitada. A solução caiu do céu: come e fecha a conta.

Minha avó outro dia mostrou o único escrito de meu tio (não podia falar mas precisava berrar), dias após ser baleado, entre os últimos instantes de lucidez que a morte nos concede pra alguma despedida, num corredor de hospital enquanto se contorcia de dor e morte, numa letra tão terrível e impossível que se ouve em cada traço seu último grito de vida[embora na minha opinião, e o mais óbvio, ele tivesse escrito isso bem antes de saber que ia morrer sabe-se lá pra que e esquecido no bolso):

“não tem lei que me tira o direito de matar um por um esses filho da puta”

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21 comentários em “Meu tio trotskista e [a galinha d]o partido

    1. Os detalhes que você se apega são intrigantes e dá vida a seus personagens, imaginei um curta metragem, uma fotografia de um momento breve e eterno em lembranças de alguém.

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      1. Opa. Rapaz, li alguns textos seus e para mim sem dúvida você tem talento, e olha que não falo isso à toa. Leio dezenas de textos de autores iniciantes (como eu) por ano e a maioria só dá desgosto. Da maior parte dos seus, gostei demais. Parabéns, mesmo. Quero muito te ver publicado. Onde você mora?

        Em tempo: pelo estilo que você escreve, esse texto meu talvez lhe interesse (ou não) https://bufoes.wordpress.com/2017/09/29/dois-regurgitos/

        Um abraço!!
        Lealdo

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      2. Não sei nem o que dizer, cara. Muito obrigado as palavras. Sou de sp e você? Você por acaso tem algo em papel?

        Te farei sim uma visita.

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      3. Moro em SP capital. Me manda seu contato por e-mail, pode ser? Já que o WordPress até onde me consta não permite chat. É lealdo.gois.andrade@gmail.com o meu e-mail. Seria ótimo bater um papo, trocar ideias literárias.

        Tenho um conto publicado numa antologia, mas mal considero – o nível da seleção foi bastante baixo, quem publicava tinha que comprar uma cota dos livros, etc. É foda.

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  1. Reconheço nesta história breve, texto apressado em tom de sumário, maior potencial de construção literária. O elevado volume de informações, as cenas e situações descritas de passagem, a densidade psicológica indicada pelas relações familiares e também o conflito maior, na minha opinião, com enorme potencial a ser explorado, personificado na batalha épica de uma mãe que cria os filhos sem ajuda, (sem conflito, sem estranhamento, não existe literatura possível, apenas relatos em tom literário). Se o texto é ficção, ou ficção baseado em realidade, não diferença para o resultado final. Registro minha sugestão, junto com os parabéns pelo texto: guarda os originais e começa a pensar, desde agora, num trabalho de fôlego, sem pressa, aonde essa história poderia ser ampliada, elaborada com calma e estratégia, transformada em novela ou romance. Tem potencial! Digo isso por experiência, como autor e também como editor, ministrante de oficinas coletivas e trabalhos dirigidos, aonde ajudo autores estreantes e alguns experientes a pensar e formatar narrativas longas. Abraço!

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    1. Primeiramente muito obrigado a aula grátis. Tais palavras, essas que fazem a gente crescer, valem ouro e já está mentalmente anotado pra futuras e íntimas reflexões sobre. Grande abraço e muita paz. Um ótimo ano.

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