Em São Paulo Deus é uma nota de cem

Claro que aqui tem marginalidade, é o que acontece quando se arrasta pra debaixo do tapete a maioria de um país. Quer falar das biqueiras? A gente fala das biqueiras, meninos e meninas de quinze anos que se desdobram em vários olhos pois pior que a polícia, a fome também volta todo dia. Pior ainda que a polícia e a fome, é amanhã sua mãe com fome. Não filhos apenas, mães. Nem todo pobre é faminto, claro, ao menos uma notícia boa sai da boca desses desgraçados, mas (nem só de pão vive o homem) não é graças ao seu deus que não se contenta nem com todo o ouro do mundo, que em nome do seu infinito amor que morram os imprestáveis, sem fé nem cu pra tudo isso. E vamos lá dizer que cobrar mais dos ricos resolve a pobreza. Pobre também compra carro, quer ter casa, TV grande e celular da época. O que mais pretendem arrecadar? Pois só o que ouvimos é arrecadação arrecadação arrecadação. A distribuição é só depois da miséria total? Ao menos nos expliquem direito. Mas o que importa é limpar as ruas de tanto vagabundo. Exército na favela e tiro pra todo lado. Maconheiro de bosta, enfia esse seu cigarro do capeta no, ah, em nome de deus e da família, cu. [dedo em riste] dar armas pra todo mundo é a solução, veja as mulheres, por exemplo, elas vão poder se defender. Se defender do estuprador, do assaltante, do ex-namorado maluco, do imbecil que fica se esfregando nela no ônibus. Mas só aí já são quatro, e ela só tem uma arma (que provavelmente estará na cintura ou no fundo da bolsa ou em casa ou com o marido, e a não ser que ela ande apontando a arma pra cada um que passar na frente, será difícil conseguir buscá-la com uma outra encostada na cabeça e uma mão apertando o pescoço). E se vão nos tirar de vitimistas, ao menos ouçam nossos vitimismos. Ouçam com raiva mesmo, mas até o final, tim-tim por tim-tim, cada pedacinho da porrada de PMs vendendo droga de farda na boca, mais cheirados que qualquer pretinho desses que te faz atravessar a rua. Mas quem vai acreditar num favelado que só por conta dessa modernização do mundo deu de usar as palavras que os tapas na cara no campinho enquanto jogava bola por ter no bolso um baseado calavam, não é mesmo? Gritem por provas e eu vou me calar, é fácil. Como berram, o problema é pouca polícia, e não duas polícias que se odeiam, divididas entre uma que investiga(mas não resolve muita coisa) e outra que caça pobres(pra resumir). Ambas lotadas de pobres. Que também ganham muito pouco e trabalham em condições terríveis. O mais engraçado de tudo é que falam falam falam mas você não ouve a dona Maria, dona de casa, mãe solteira, que sai de madrugada e atravessa a cidade nas melhores conduções que existem, pra chegar em casa quase de madrugada outra vez, isso quando o ônibus não quebra e aí já é um dia perdido, lá se vai mais um tantinho da renda. Talvez ela só queira um hospital direitinho, não precisa ter luxo, só precisa ter médico, um sistema de transporte útil, quer ter suas coisinhas, um esmalte azul-bebê, o “hominho” do Batman que Juninho adora, dar uma volta de vez em quando, às vezes um teatro, estádio, cinema, shopping, o chá-de-bebê da Selma, simplesmente combinar entre amigos um churrasquinho ou seja lá o que dê sentido à sua vida, não pagar um salário num botijão de gás, quer ter pra onde voltar depois do trabalho, ver seu filho chegando da escola maravilhado com o laboratório de ciências, poder pagar um pacote decente de TV e Internet pra não depender do amargo ócio da TV aberta, embora não perca sua novela. Quer viver numa paz possível. Impossível, quando só o que se vê são propostas irreais, pensadas a partir de seu impacto na urna e nunca em sua efetividade real ou simplesmente possibilidade, focadas ou na distribuição de mais fardas pra quanto mais policiais mais drogas mortas ou no velho populismo de grudar no pobre pelo bolso com propostas vazias que dependem apenas de “vontade política” e nunca duma explicação minimamente complexa, enquanto as crianças vão saindo cada vez mais cedo das escolas, e os professores vão se esvaindo, gota a gota, junto de nossa juventude. Nossos futuros velhos, que isso não seja esquecido. 

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9 comentários em “Em São Paulo Deus é uma nota de cem

  1. Um de seus melhores textos. Tão pouca gente pode perceber, entender como isso as afeta, e compreender que um pouco menos de egoísmo curto pode gerar uma vivência tão mais feliz e pacífica para todos, se todos puderem ter o que todos já têm, segundo as leis e o Direito.

    Se mais pessoas entendessem o que você diz, e vissem que não buscando vantagens curtas que necessariamente destroem o que é coletivo, despioraríamos.

    Futuro, futuro. Lá, bem lá, seremos um país.

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