Amizades, devaneios e ponto-final

Naqueles tempos a gente tinha o Baiano, um baixinho que gostava de todo mundo mas não queria trabalhar pra ninguém, aprendera com a vida de um tudo, desde consertar bicicletas até improvisar uma cirurgia. A amostra perfeita do brasileiro de Gilberto Freyre. Teve uma porrada de filhos mais inteligentes que ele e passou a vida precisando da mulher pra atividades tão difíceis quanto sacar dinheiro do banco. Já o devem ter enterrado, se cada cigarro é mesmo um novo prego em nosso caixão como dizem, o coitado fora pra terra num caixão de pregos, mas um caixão de pregos todo enfeitado e cheio de flores: não havia bondade maior que aquele rapaz. Tinha também o Gordão e seu primo Pinga que moravam num campinho onde a gente jogava bola, Erosão o nome, erosão no sentido do campo ser literalmente num buracão(cuja história consta que já fora campo-de-treinamento dum time que disputou série B do brasileirão – porém em nossa época já estava destruído). Ambos o famoso corote deve ter matado, porém eram pessoas absolutamente únicas. De bate-pronto lembro-me assim dum dia que o Gordão veio até nós com um pedaço seco de bosta de cavalo na mão e jogou no Pinguinha(apelido carinhoso) mandando ele dichavar, por meio-segundo os olhinhos do menino brilharam(um pouco também por conta da cachaça) mas [in]felizmente ele conseguiu se esquivar da falsa maconha antes de tocá-la. Outro dos que pouco davam as caras era o Unha, um cabeçudo magricela da sobrancelha enorme que às vezes andava com um bigodão que mais parecia outra sobrancelha. Conquistara o apelido após muita paciência em deixar crescer as maiores unhas que um pé já carregou, e com o tempo foi se abrindo em diversas variações, tais unha-borboleta, cuja história um bando de maconheiros conseguiu ligar uma unha a um casulo, e dali o Unha voaria para o sucesso; Unha-suja, que vinha do resultado de longas caminhadas com seu chinelo velho e uma mochila que carregava incrivelmente de tudo, exceto qualquer coisa útil, – nesse tema das caminhadas sempre arrematava com um mantra inseparável: pra frente é que se anda; e o clássico Macunha, resultado de muita muita muita. Esse daí sumiu como apareceu deixando nada mais que breves boatos, uns diziam que enlouqueceu outros que se afogou naquela livralhada toda, o fato é que deve ser só mais um velho solitário num banco qualquer por aí afora. Não dá pra esquecer mesmo é do Chicão, um neguinho meio bombadão meio pançudo que por mais que se mostrasse o machão, não havia um pra apostar em sua heterossexualidade, era dum jeito muito singular, a frieza em pessoa, um dos clássicos na roda é de quando um amigo vomitava quase todos os órgãos numa madrugada de bebedeira, e sua única reação fora pegar da mão do rapaz a metade do pastel que segurava e comer ali, tranquilamente. Também era meio brusco, sem meias-palavras: se está gorda está gorda. Tinha um lema que era: moreno, forte e pauzudo. Usou esse lema até o dia em que uma garota respondeu com um simples questionamento: e onde estão os três? Chicão fugiu pra capital enquanto isso ainda dava dinheiro, não sei se ganhou tanto assim, as coisas andavam ruins pra todo mundo.

Eram tempos de crise, o país rugia com seus milhões e milhões de desempregados, a grande-mídia tornara o medo rotina, ferramenta perfeita pro governo mandar entrar pelos morros seus fardados fazendo o que desse na telha sob o suposto grito da guerra contra as drogas, já deixando claro no próprio discurso quem eram as drogas. Eram policiais pobres numa guerra contra homens pobres. Como cereja do bolo passaram a ligar qualquer projeto social progressista às atrocidades cometidas sob regimes comunistas no século XX. A fim de nos levar a crer que um século inteiro pode ser resumido numa era de massacres cometidos em nome dum paraíso futuro, e que o fim inevitável de quaisquer projetos mais à esquerda é o genocídio de milhões. Da forma mais grotesca, fizeram dos terrores de um século arma contra o inimigo, relativizando-os e tirando-os de contexto [sempre aos berros, dedo em riste, em nome da fé, da família, da nação, do homem-de-bem], ignorando que revisá-los com olhos críticos é fundamental, expô-los abertamente, se constranger perante o mundo mas principalmente aos pés dos históricamente humilhados, resultando daí numa profunda reflexão, reflexão necessária pra reconhecer que os fracassos de uma ideia nos torna mais conscientes sobre sua falibilidade, seus limites e pontos cruciais a serem superados. Naturalizado o velho discurso que aponta no passado apenas sangue e destruição e nos apresenta um futuro que definitivamente não pode ser diferente do que já é, pérolas como “pior que tá não fica” começam a ganhar corações, pobres corações. Escancarar os ossos dum passado escravista sempre varrido e diminuído governo após governo, impedindo o brasileiro de se entender e destruir esse complexo casa grande e senzala que nos molda desde pequenos, tanto pra baixo quanto pra cima, talvez seja o primeiro passo rumo uma sociedade verdadeiramente livre.

O primeiro passo.

O país se sucedia numa onda de escândalos após escândalos. A capital ao mesmo tempo tinha um horizonte terrível e um ar de novas esperanças. E lá se enfiou Chicão pra nunca mais dar notícias. O Corcundão também terminou indo morar noutra cidade, tinha uma mão rara pro desenho mas a falta de empregos ou de uma oficina artística decente aberta ao público o impediam de almejar qualquer degrau. Também conhecido como Maria-cincão, resolvia seus negócios de forma simples, seja pra desenhar você com sua namorada seja pra matar você e sua namorada, cinco reais resolve. Uma lenda entre os conhecidos dizia que dar tapas na corcunda do Corcundão dava sorte. Nunca deu. Vivera apaixonado por uma amiga de infância que chamavam de Véia pelo simples dela ser a mais velha da turma. Espero que tenham mesmo casado. Formariam um casal bastante engraçado. Véia era a menina que a gente podia falar besteira, peidar na frente, xingar a mãe, assistir Rambo, contar piada de português, de papagaio, pedir pra esperar um momentinho enquanto ia mijar num terreno qualquer, enfim, que saudade. Inclusive, fora ela quem trucidou o bordão do Chicão com uma única e curta interrogação. Mas naquela época nossas expectativas iam pra outro casal. Zoião era a paixão oculta do Chicão, paixão infelizmente não correspondida, mas demonstrada no ódio por qualquer menina que se aproximasse de Zoião. Zoião era famoso por seu OLHÃO GRANDÃO ASSIM. E enquanto os amigos sonhavam com a Europa, seu maior sonho era visitar Bauru. Namorou por muito tempo uma garota que na infância fora muito amiga de Chicão mas que inexplicavelmente ele passou a odiar de repente. Certa vez Zoião disse que sua namorada estava frequentando uma academia pra perder uns quilinhos, no que Chicão respondeu de pronto: academia onde, no McDonald’s? Depois ainda teve a cara-de-pau de pedir carona pra casa, imagine só. Eram amigos de infância, afinal, e sabe-se lá se eles também não se casaram.

Um dos nossos orgulhos foi que a favela aprendeu a se defender, mostrar que não é só samba futebol e mão-de-obra barata, movendo a economia, lançando e ditando a moda perante seu próprio gosto. Uma maioria que aprendeu a usar seu poder pra ter seu lugar, ter seu celular, sua tevê à cabo. Pularam de excluídos pra público-alvo. Com o movimento LGBT se seguia parecido, os armários perderam suas portas e se via pelas ruas uma penca de gente de todo tipo. Gente esfregando na cara da sociedade que se cada um lava o seu, faz dele o que quiser. Dois negões(?) velhos casados logo se tornariam símbolos duma luta ainda longe do fim, porém agora com força de reação. Subiriam em palanques, teriam as caras em muitos dos blogs alternativos à capenga grande-mídia, praticamente toda ela desacreditada. Quem sabe até figurassem em livros, programas de TV e rádio, exigindo respeito à diversidade.

Já a Geise era literalmente filha de Jesus. Um Jesus serralheiro que era a cara do sr. Madruga e que vira e mexe chamava a gente pros famosos churrascos de fim-de-ano em sua casa. Quase do tamanho dum pacote de Doritos, só que cheirando bem melhor, Geise era um poço de contradições. Tinha um ar tímido, uns olhos castanhos que não me canso de citar em qualquer oportunidade, aquele cabelão enorme que até hoje paira a dúvida se eles é que cresceram pra além da conta ou se ela é que desistiu de crescer tão cedo, um sorriso que não dizia nada, muito pelo contrário, silenciava tudo. Assustador. Hipnotizante. Onde quer que fosse ostentava sempre o riso frouxo, fácil, com suas gargalhadas no último volume, seu temperamento impossível quando atiçada e aquele ar meio Peter-Pan que se traduz num único arrependimento: nunca tê-la pedido em casamento. Não se perdia de seus filmes favoritos, os sobre exorcismo, princesas Disney e das novelas mexicanas. E ainda desenhava um elefantinho cor-de-rosa de arrombar a gente de tão lindo. Uma pena Tom Jobim não tê-la conhecido. Perdemos valiosas canções com isso.

Voltando ao Baiano, me vêm as lembranças das noites em que a gente juntava a velha turma pra encher a cabeça de erva dentro do banheiro minúsculo de sua casa. O Will, um narigudo maluco que comeu a cidade toda e terminou casado, e quem sabe tenha quitado seus pecados através dos filhos, como praguejado por tantas sogras e sogros, dificilmente deixava de marcar sua presença. Sempre companhia certa, seja pra festas igrejas ou guerras, Will é o cara que vai te fazer rir puxando a própria cadeira e se espatifando no chão, mas se outra pessoa fizer isso com você, se prepare pra suportá-lo rindo durante anos sem pausa pra respirar.

Foram mesmo dias incríveis. Quantos braços não daria por um minuto de outra noite daquelas, com cada um daqueles imbecis, as enormes caminhadas de volta pra casa na madrugada por não ter ônibus nem dinheiro pro ônibus, todo o antes e o depois, a expectativa e o cansaço, o riso e o sono e aquela atmosfera completamente Beavis and Butt-Head. Quem sabe até já não estejamos um a um enterrados agora e essa bobagem toda caiu no esquecimento junto de suas personagens. A esperança é a última que morre, isso é tão triste [pra ela].

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16 comentários em “Amizades, devaneios e ponto-final

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