Uma biografia de Jesus

A primeira mulher que comi tinha quinze anos. Eu tinha quinze anos, não ela. Ela era uma pretona quase-velha que hoje já deve estar morta. Foi num cabaré que ficava de frente da igrejinha pra onde vovó me arrastava alguns domingos. Numa casinha toda ajeitadinha, de portão baixinho roxo e até uma placa de cuidado com o cachorro – só não tinha o cachorro. Por vezes via uma morena com um cabelão todo preto num vestido que já parece ter nascido nela, uns olhos que formavam claramente uma dupla de raríssimos diamantes castanhos, saindo da casa e atravessando a rua até a igreja. Munida de sua bíblia, ajoelhava e cantava como se fossem suas todas aquelas canções. Canções lindas, que em nada combinavam com suas atividades. Hinos de uma beleza artística que poucos corpos se assemelham. Mas lá ela ia, a caminho daquela paz perdida em tantas noites à venda. Vira e mexe uma ou outra menina a acompanhava, subiam juntas as escadas e pra quem visse de dentro, faziam parte da estrutura. Só derrubei a ficha sobre o que se tratava a casa depois de gozar. Foi nesse exato [e estranho] momento, em meu aniversário de quinze anos, enquanto a mulher me empurrava de cima dela e abotoava o sutiã, me deu de pensar que a mesma loira que rebolava na sala com os peitos de fora e uma porrada de dinheiro na calcinha, no dia anterior, de mãos dadas com toda a igreja, clamava pelo Juninho, filho do irmão Valdenir, que caiu de bicicleta na quinta e quebrou um braço. Se via no rosto daquela mulher o cru da fé, enquanto eu, que de sofrimento nada sei, só fazia rir baixinho com a possibilidade de dois Valdenir no mundo. A morena de cabelos mais longos e brilhosos que já vi, a mesma que não perde um domingo o culto, chupando o pau dum velho com a cara suja, em cima da pia onde a mulher que me levou a virgindade me aconselhou beber água. Jamais confundiria aqueles ombros, feitos simetricamente pra deitar os cabelos mais lindos da Criação. Era a primeira vez que via seu rabo, mas olhava como se fôssemos íntimos, como se aquela bunda fosse meu travesseiro e aqueles cabelos minha coberta, noite após noite. Coisa de meio segundo: entrei na cozinha, reparei na cena e dei meia-volta. O suficiente pra me bater na cara um ciúme de outro mundo. Queria voltar naquela cozinha imediatamente, agarrar qualquer coisa parecida com uma faca que encontrasse e rasgar de ponta a ponta o pescoço do infeliz. Não fiz. Pelo contrário, procurei o tio que me presenteara com aquilo e depois duma breve comemoração, promessas de ninguém na família jamais vir a sonhar com aquela noite e de enfiar goela abaixo um copo de vodca quase maior que eu, fomos pra casa. Mesmo sem nem saber o nome da moça, aquilo me intrigou como um amante. Não havia em minha cabeça recém-adolescente lugar pra duas cenas tão distintas. Num domingo a céu azul a face da pureza, poucas horas depois, pelada numa cozinha fria como o inferno, com um pau encardido de graxa afundado na garganta. Me apaixonei. Continuei indo com vovó à igreja vez ou outra, e cada vez mais e mais e mais. Mas não mais por gosto, simplesmente por ela agora. Encarar aquela casa pra vê-la sair era meu culto. Por vezes brincava de acertar qual menina sairia com ela dessa vez. hoje vai ser a loira. a baixinha de cabelinho curto. a magrinha de óculos que tem cara de brava mas quando sorri vira criança. a ruiva que a cada dia que passa troca o tom de vermelho. hoje ela vem sozinha. Todas elas, umas mais outras menos. Com exceção da pretona que me tirou o cabaço. Nunca mais a vi, como nunca antes tinha visto. A princípio, ela se aproximou já me puxando pelo braço se dizendo a noiva dos virgens. Tentei recuar, mas meu tio e seus amigos me deram aquele velho empurram à base de risinhos e comentários soltos. aí sim, porra. o meninão vai virar macho. vai lá, garanhão. hahaha. afunda sem dó, moleque. honra a família, heim, vagabundo. hahaha. Quatro ou cinco minutos depois lá estava eu na cozinha olhando o anjo mais lindo da vida ajoelhada diante dum demônio qualquer por seus cinquenta, sessenta reais da luz ou água ou energia ou gás, e pra cada uma dessas outro cliente como aquele e assim sucessivamente. Todas elas. Passamos anos dessa maneira. Até que vovó morreu e eu parei com a igreja. Continuei usando o mesmo pretexto, mas agora sem precisar entrar na igreja. Parava no mesmo lugar de sempre, até ela sair de casa e sumir dentro do templo, daí voltava como se tivéssemos passado a vida juntos e não meio segundo no campo de visão ou do outro. Logo descobri que a pretona de anos antes tinha sumido no mundo tal como havia aparecido antes de fundar o puteiro. Nomeou Luana a nova dona e daí virou fumaça. E a partir de então Luana nunca mais transou. Perdeu a paixão, o amor, sei lá, se perdeu. Perdeu a vida seja lá o que isso signifique. Passou a costurar futuros pras meninas que iam até ela pedindo trabalho. Aulas, remédios, tratamentos. Alimentação. Abraço, sorriso. Café da manhã, faxina de sábado, compra em conjunto, cinema em dias de folga. Igreja de vez em quando. Tudo pra se enxergarem num lar, minimamente em família. Nenhuma vida trepava em vão naquela casa. Dali um tempo a menina se retirava daquela vida direto prum rumo. O que além de ótimo pras meninas, era ótimo também pros negócios. Na teoria. A novidade dum puteiro de quando em quando totalmente renovado e sem escravidão correu tantos pedaços que nada diminuía a chuva de homens sedentos e mulheres perturbadas psicologicamente com suas vidas na lama, sem perspectivas e carregando nada além dum par de peitos que sinceramente, de tantos anos de puro sofrimento, chegavam ali quase sem utilidade(ou quem pagasse). A quantidade de mulher batendo a qualquer hora naquela casa atiçou a [inveja do movimento?] igrejinha e logo surgiram os primeiros comentários sobre as “ignorantes analfabetas sem direção se deixando explorar pelas faces de Satanás”, como ouvi gritar o pastor num domingo esperando Luana. Luana passou a ser vista torto. Valdenilson, ou Valdenir, que seja, já não queria mais Luana orando por seu filho. Ninguém queria. Na hora de dar as mãos, a corrente que formavam só abria um buraco, lá no cantinho onde morava Deus. Inadmissível, veja só, pessoas encontrando Deus num puteiro de frente da própria casa Dele. Com o tempo as outras meninas pararam de acompanhá-la, não há quem permaneça num lugar onde é visto como corda pro inferno o tempo todo. No próximo passo ela parou de botar seu vestido doce e saltitar até lá. Meu domingo silenciou. Um domingo após o outro, durante meses, percorri o mesmo caminho, permaneci parado no mesmo lugar cada vez por mais tempo. Já houve de o pastor sair e eu ainda estar lá com esperança de ela aparecer. Ela não apareceu. Nunca mais apareceu. A vi milhões de anos depois, toda velhinha, escolhendo discos numa loja. Não a reconheci de cara, apenas uns traços e alguns fios de cabelo ainda não totalmente brancos. Também havia um vestido, não aquele de minha juventude, mas ainda se comportava como os vestidos se comportavam nela. E os ombros igualmente inesquecíveis. Tudo nela se transformava nela, e nem a dor da idade conseguiu arrancar isso. Não aguentei nem fiz rodeios – grande erro(?). Luana? Ela parou. Ela não, tudo parou. Ela ficou encarando uns discos que tinha nas mãos, de repente eles pesaram até cair e então ela me olhou, nos olhamos, tentou rapidamente reconhecer, daí correu. E eu a vi de costas pela última vez, tal como a vi durante toda uma adolescência.

Envelheci. Hoje Luana está morta e eu passo todas as manhãs varrendo a calçada esperando ela virar a esquina. De frente da mesma igrejinha onde ela entrava aos domingos. Na mesma casinha de onde ela saía. Casinha que fiz questão de comprar assim que a vi colando a placa no portão dias antes de sumir, não só pelo preço baixíssimo, mas pela oportunidade de conhecê-la pessoa física. Vendi a casa de vovó com o mesmo desespero, e ainda tive que eu próprio destruir o jardim onde a coitada passou a vida alimentando passarinhos – jamais serei perdoado. Joana Demstein algo assim só que com bem mais consoantes e sem vogal. Gostei bem mais de Joana. Queria vender rápido pois precisava voltar o quanto antes pra casa da família. Aceitei pagar o dobro com a condição de que me contasse a verdade. Encontrara trabalho no Sul, recepcionista ou secretaria e viajaria logo cedo, não levaria nada da casa e eu que me virasse pra trocar a mobília e dar um fim em toda aquela velharia. Vê-la daquela maneira, uma mistura de desespero e carência, me subiu uma coisa de outro mundo e sem dar por mim a pedi em casamento. larga isso de vender a casa e mora comigo nela. Ela riu e disse que era puta. Estava de volta marcada pra Itapuã, lugar onde deixou amor pai mãe o mar e todo o resto. Afora o amor caguei pra cada palavra. se já tem amor então por que é puta? Maldito imbecil eu. Ela só me olhou, um tiro de olhar. Não disse nada. Apenas jogou as chaves no chão e se foi. Hoje isso já é passado há pra lá de seus cinquenta e tantos anos. Corri todos os puteiros nos buracos mais fundos e quentes desses cantos, em busca de qualquer uma daquelas ex-companheiras de Luana – com sorte alguns clientes. Bati na porta de cada vizinho e também em cada porta onde os vizinhos me mandaram bater. Conversei com umas duas cidades de putas e crentes e ateus e ouvi histórias das quais só vou me esquecer se Deus resolver tirar primeiro a cabeça antes da alma, mas mesmo pagando o dobro e de bônus a vida, ela nunca me contou a verdade.

A pretona que me iniciou, Socorro o nome dela, morreu anos depois daquela noite. Dizem que tinha uma história com um tal pastor e que foi um tanto forçada embora depois de flagrada. Me distraí com uma puta chamada Socorro e perdi a parte das ameaças. Pouco importa. Eu não presto mesmo. Deus que me perdoe.

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