Me dá licença desse armário que eu preciso sair

Futebol me foi toda a vida um sonho que não valeria sonhar. Porém, jamais deixei de o sonhar por conta de detalhes, nem conseguiria se quisesse – como tentei. Até os quinze anos rodei algumas escolinhas, alimentei esperanças das mais murchas. Dei de lateral, volante, zagueiro e embora não fosse a personificação da vergonha dentro de campo, aos dezesseis preferi um emprego. Nunca declarei abertamente este amor, queria era ser intelectual, filosofar aos mil ventos, escrever livros, poesia, não torcer por indivíduos que nada têm a ver comigo correndo atrás de uma bola que de nada me serve. De alguma forma, por qualquer motivo, me afastei do esporte, ao menos pensei estar conseguindo. Em 2009, pouco depois de Ronaldo estrear pelo Corinthians, por exemplo, numa batalha contra o Palmeiras, o Fenômeno vai a campo e no último lance cabeceia pro gol uma bola das mais importantes desta vida que Deus me deu. Nós numa chácara para o aniversário de um amigo, já arrumados esperando apenas o fim da partida para voltar pra casa, os carros ligados aguardando, sai o gol e sem me tocar ou pensar ou os dois, de calça jeans, mochila e óculos, me jogo na piscina. Só dei por mim quando já estava dentro d’água. Nem mesmo percebi os outros meninos vindo atrás. Vi o gol e algo em mim pifou, o corpo deu na piscina e a alma em Presidente Prudente(não me peça o nome do estádio), e quem sabe tenha conseguido até um abraço do próprio Ronaldo. Um alguém que viveu o que ele viveu e todas as vezes voltou para contar história e fazer mais história, não sei com você, mas em mim gera lágrimas, e gente assim merece abraços. Na Libertadores chorei pelo Cássio, sem ele nada teria sido possível. No Mundial, quem me levou às lágrimas foi Danilo. No rebaixamento chorei pelo Dualib, mas aí foi de ódio. Todas as vezes pelo Corinthians. Pelo futebol. Por amor. Chorei como num título a permanência recente do São Paulo na série A. Chorei por minha tia, são-paulina rara que o câncer levou. Desde que ela se foi cada vitória do SP sinto como um abraço seu em mim. E eu adoro os abraços daquela mulher. Não chorei no 7 a 1 pois estava com uma ex-namorada e precisava me passar por machão, mais ainda, fingir que não dava a mínima. Tive de chorar por dentro mas chorar por dentro dói mais que por fora, e engolir dói mais que um tiro. Em 98 estava com quase três anos, 2002 era ainda muito pequeno pra me lembrar de algo concreto, 2006 também lembro pouca coisa, 2010 queria não lembrar e em 2014 queria não estar vivo. Todos os sentimentos cuidadosamente preparados para nunca vazarem em público. Talvez timidez, essa extrema timidez que me come todos os dias, sem exceção, ou por me achar superior. Pouco importam meus problemas, motivos, hoje me livro deste peso, toda a injustiça contra o esporte que me moldou. Percebi que sempre, em qualquer circunstância, por pior que tenhamos sido, o esporte nos perdoa, como a literatura, nos dá outra e outras chances. Nos dá novos sonhos. Felizmente me caiu a ficha antes da velhice, temos toda a vida para escrevermos novas lágrimas, o futebol e eu. Não sei até onde aguentaria se este amor continuasse no armário por muito mais tempo. E esse é só um dos armários que ainda preciso arrombar.


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