Perdão 

Cláudio saiu batendo a porta com toda força, nunca mais olha na minha cara, gritou antes de partir para o elevador. Presumindo que seu Mário, o ascensorista, fosse fazer perguntas que não queria responder, optou pela escada, pouco se importando com o fato de estar no sétimo andar. Não desceu dois andares já estava aos prantos. No terceiro ou quarto as pernas já começavam a cobrar os dias de sedentarismo. Como se toda aquela raiva tivesse desistido de descer junto dele, chegou no térreo sem saber diferenciar o que era lágrima do que era suor e um pouco arrependido. Eu preciso ser forte, eu preciso ser forte, repetia enquanto a vontade de voltar pra casa aumentava. Saiu do prédio sem responder as preocupações do porteiro e torcendo para não cruzar com nenhum conhecido. Será que estou exagerando, se perguntou quase ao virar a esquina, claro que não, óbvio que não, eu mereço algum valor, disse em pensamento desistindo da casa da mãe, afinal, a própria família o forçou a se mudar, pedir ajuda seria ainda mais humilhante que ser expulso e abandonado. Passou os olhos pela agenda do celular, mas só pensava em Júlio correndo para levá-lo de volta e até ensaiou um sorriso de leve com essa hipótese. Conseguiu vencer o impeto de olhar para o sétimo andar, mesmo ouvindo os gritos desesperados vindos lá de cima, de forma nenhuma podia vê-lo, se o visse, provavelmente voltaria. Lembrou de um bar em poucas quadras, resolveu que iria espairecer e que na manhã seguinte pensaria com mais calma. Por que não veio atrás de me impedir, se perguntou, sabia que uma ligação o faria voltar, mas levaram o celular do Júlio semanas antes, ao menos que ele literalmente corresse e demonstrasse todo aquele amor que dizia, nada mudaria. As lágrimas voltaram a jorrar com esses pensamentos, então ele caminhou até uma loja de departamentos do outro lado da rua e correu até o banheiro, jogou água no rosto e passou alguns minutos se olhando no espelho, se martirizando pela própria vida. Somente após furiosas batidas percebeu que já deveria ter saído, ainda enfrentou sussurros ofensivos do rapaz que estava do outro lado da porta. Caminhou até o bar onde planejava beber uma garrafa de vodca para afogar os sentimentos, não tinha para onde ir e sua própria família o tinha quase como um rato, ou rata. Sentou-se no bar ainda com esperança de ver Júlio aparecer na porta o procurando desesperadamente, coisa que não aconteceu, pelo menos enquanto estava consciente. Foi chutado no fechar das portas e em zigue-zague se pôs a caminhar pelas ruas frias e perigosas da madrugada mais triste desde o dia da revelação. Era nítido o estado deplorável que se encontrava, via-se à distância que não demoraria muito a desmoronar pelas calçadas. Ao ver seu reflexo numa vitrine qualquer, lembrou-se do dia que foi obrigado a viver e novamente explodiu em lágrimas, mas agora sem escrúpulos nem vergonha alguma, simplesmente se encostou num poste e abraçado aos joelhos, chorou exatamente como fazia na infância ao ser surrado pelo pai por brincar de chá-da-tarde com a irmã e suas pelúcias. Essa lembrança o levou a se estapear no rosto, trazendo memórias de quando, fingindo dormir, ouvia a mãe dizer para amigas que não haveria felicidade por onde ele passar entre outras atrocidades, se não se arrependesse o quanto antes. Ninguém o entendia, ele pensava, para seus pais não passava de um veadinho-de-merda, e também nunca foi de aporrinhar os outros, ainda mais de madrugada e completamente bêbado, atitude que sempre conservou intacta em sua mente, não importa o quanto ou o que bebesse. Queria voltar pra casa mas enquanto Júlio não se manifestar, não me movo, jurava sem condições de cumprir qualquer jura ou se mover. Capotou encostado naquele mesmo poste e nunca mais acordou, fora espancado até a morte por alguns rapazes que voltavam por aquele caminho depois de uma festa ou o que quer que fosse. Um deles deduziu que seria legal dar um susto no veadinho que o fez esperar quase meia hora para usar o banheiro mais cedo, e todos acharam divertido. Fizeram questão de chamar uma ambulância quando perceberam que -talvez- passaram dos limites. Somente oito horas depois conseguiram contatar sua família para reconhecimento de corpo, e em quinze minutos sua mãe já estava de joelhos diante do cadáver gélido de seu filho, timidamente arrependida, perguntando a Deus como Ele pôde permitir que aquilo acontecesse, gritando aos prantos que nunca se perdoaria por deixá-lo partir. De seu pai não se teve notícias, seja ali ou posteriormente no funeral, mostrando onde pode chegar a crueldade do homem, em especial, um pai, e todos davam esse caso por esquecido, principalmente por ele, quando, três anos depois, fora encontrado morto em sua casa, enforcado e nu -dizem que o fardo de ter matado o próprio filho pesou tanto que nem roupas conseguia carregar. Ainda no IML, mexendo nos bolsos de Cláudio buscando seus pertences para encaminhá-los à família, os médicos descobriram, além de seu celular e carteira, duas chaves iguais: ambas abriam a porta do apartamento de Júlio, de onde Cláudio saiu em disparada sem perceber tê-lo trancado do lado de dentro.

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