Se esse ônibus falasse…

Queria que esse ônibus tivesse três vezes o seu tamanho e andasse três vezes mais devagar. Talvez eu fizesse algumas amizades. Mas se assim fosse, a cidade também precisaria crescer três vezes, e precisaríamos de três vezes mais habitantes e mais ônibus para acolhê-los. Quem sabe dessa forma eu tivesse oportunidade de conhecer algumas pessoas. Poucos se importam com os cobradores. Passam a catraca e se vão como se não existisse ninguém ali. Os que lembram que existe vida do outro lado da catraca, fazem unicamente para pedir informação. Nunca quiseram saber o que eu achei do jogo de ontem. Se sou Corinthians ou Fluminense. Como estão minha mulher e meus filhos. Se é bom ou ruim esse emprego de cobrador. A abordagem é sempre a mesma, quando chegar perto de tal lugar o senhor me avisa por favor, perguntam e se vão assim que encontram suas respostas. Dão bom-dia ao motorista e passam por mim calados como se eu estivesse roubando o dinheiro deles. No fim, ônibus maiores e mais cidade e pessoas não trariam benefício algum. Continuariam me ignorando e subindo e descendo do ônibus como se fosse um elevador. Olhando umas para as outras como se se odiassem. Fechando a cara quando precisam ceder o lugar a idosos ou gestantes. E esboçando alguns poucos sorrisos causados por algo no celular. Eu continuaria solitário naquele canto quase-invisível. Passando todas as viagens sem poder perguntar a alguém como está sua vida, seu emprego. Como os políticos estão destruindo o país. Reclamar dos preços absurdos nos supermercados. Do cinema que perdeu toda sua essência e faz tudo como se o dinheiro estivesse acima da arte. Saber da história do porteiro que caiu da escada ou foi pego em flagrante com a faxineira. Do cachorrinho que roubaram e só devolveram depois de divulgada a recompensa. Da dor nas costas que não quer passar de jeito nenhum. Do adolescente que fugiu de casa e foi encontrado debaixo da cama. Aproveitar que não estamos em um elevador para sermos mais humanos uns com os outros. Não me lembro da última vez que vi nascer uma amizade entre dois passageiros que subiram em pontos diferentes e nunca se viram. As pessoas não se reconhecem mais, vivemos num mundo triste. Antigamente não saíamos das lotéricas ou filas de banco sem novos amigos. Hoje passamos horas juntos dentro do ônibus sem sequer olhar em volta. Helena estava certa, vivia dizendo para eu não dar trelas para isso e fazer meu trabalho. Mas Helena se foi, eu estou aqui. Desde que ela me deixou, pouco a pouco venho perdendo a vontade de conhecer essas pessoas. Será que alguma delas se importaria com o que tem a dizer um cobrador abandonado? Ninguém faz amizade com quem tira seu dinheiro. Talvez fosse mais fácil conhecer pessoas se eu distribuísse dinheiro ao invés de recolhê-lo, mas isso caracterizaria roubo e eu já não seria mais cobrador. Se me perguntassem o que acho do meu emprego, diria que nasci para ele. Isto é um espelho da minha vida: eu jogado num canto qualquer enquanto as pessoas passam por mim e se vão. Será que nos esquecemos do poder que existe em um bom dia como vai você, ou perdemos toda a noção de ser-humanidade? Devia era ter escutado Helena, ficado na minha e não sonhando com essa coisa de um mundo melhor. Ninguém te ignora se você o ignorar primeiro, ela dizia e eu a odiava por alguns segundos. Mas ela se foi sem nunca ter me amado, deixou apenas um bilhete e nenhum adeus. É possível ter um grande-amor-da-vida sem ser o grande-amor-da-vida dessa pessoa? Se ainda existe justiça neste mundo e a resposta for não, continuarei neste ônibus até que meu respirar cesse ou suba alguém e me veja, pergunte como estou e queira sair para tomar um suco, uma cerveja depois do expediente, ver um filme e passar a vida juntos. Ou pode ser que meu grande-amor-da-vida seja esse ônibus, e cada pessoa que sobe e desce sem ao menos notar minha presença, como fez minha ex-mulher. 

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18 comentários em “Se esse ônibus falasse…

    1. Caro, começo pedindo perdão pela demora. Agradeço imensamente ter pensado neste humilde blog. Infelizmente, não tenho como participar no momento, estou sem computador, celular… Assim que der um jeito nesses detalhes, faço minha parte em prol da comunidade. Paz, irmão. E novamente: Obrigado. Você é sensacional.

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      1. Somos sensacionais, meu caro!
        Sinto muito pelo momento difícil que está vivendo e creia, compreendo completamente!
        Quando houver oportunidade, responda se assim o desejar!
        Um grande abraço!

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    1. Caro, assim que tiver tempo participarei. Agradeço imensamente e também peço perdão pela demora da resposta. No momento estou sem computador, celular e afins, mas assim que der um jeito nisso tudo, farei minha parte pela comunidade. Paz pra ti e novamente, obrigado.

      Curtido por 1 pessoa

  1. Meu caro, o protagonista desta estória é quase o próprio ônibus: um objeto, sem valor para os outros, uma coisa… Bem-vindo a era das relaçoes líquidas… Eu vi que já visitou meu blog e fico muito feliz :). Continuarei tratando de aproximar as culturas da América Latina e compartilhando poesia de autor. Seus comentários serao apreciados. Namaste!

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