Uma carta que o coração sozinho nunca foi capaz de escrever

Lembra quando a gente se conheceu? Eu cheio de saúde, gordinho, rostinho angelical, uma doçura de bebê, os olhos do mundo brilhavam quando eu sorria, pulmão de ouro, incansável, corre uma lenda na família de que certa vez chorei por quase 24 horas sem parar, pensaram que eu morreria ou mataria alguém, ninguém acertou. Hoje, por outro lado, reclamo 24h. Alguns hábitos não mudam, se adaptam. Você coberta de esperanças, “esse vai ser doutor”, bradavam. Mãe de segunda viagem, esperava ansiosamente uma menina: Quarto rosa, berço de princesa, vestidinhos diversos, tudo em razão da Natália(será que isso responde meu lado meio-gay?). Para a tristeza de tantos, nasci menino. Me ignorou assim que me viu, gritava aos quatro ventos que trocaram sua bebêzinha, afinal, era impossível todas aquelas simpatias estarem erradas. Tudo, absolutamente tudo indicava uma Natália. Tadinha da Natália, será que se perdeu pelo caminho ou eu errei de mãe? Me conhecendo hoje, nada pode ser descartado. Passaram-se dias até aceitar que eu não seria a garotinha que sempre sonhou, e quando enfim resolveu me amar da forma que vim, ainda passei por Ariel e João antes de me tornar André. Semanas após meu nascimento é que finalmente nasci. Se nem nosso primeiro encontro foi fácil, imagina o decorrer da vida. Comigo ainda pequeno e um irmão entrando na pré-adolescência, meu pai deu de morrer(eu te perdôo, pai). Não que ele fosse um homem de dar orgulhos, mas ainda assim era o sustento da casa(omito aqui quaisquer informações sobre meu pai por motivos óbvios: É dia das mães). Mãe solteira de dois filhos, um com doze e outro de cinco anos. Para ajudar, além de dívidas e uma pensão bem mais-ou-menos, meu pai-herói não nos deixou nada.  Quantos anos você passou limpando privada dos outros para que tivéssemos o que comer? Quantos desaforos engoliu por nós dois? Quantas noites chorou por não poder nos dar algo que pedimos muito? Lutou arduamente para que pudéssemos sonhar. Afogou seus próprios sonhos. Se existe um significado à altura da palavra “Mãe”, esse significado é você. Talvez eu não seja o filho de seus sonhos, já nasci não sendo. Mas saiba, do fundo do coração, que se pudesse, seria com amor a Natália que não chegou. Passaria horas com você mexendo no cabelo, unhas, roupas e afins. Correria aos seus braços desesperada no dia da minha primeira menstruação -e também no dia em que ela não viesse-. Fofocaríamos juntas sentadas na sala vendo Casos de família, sem contar as inúmeras novelas que não perderíamos um capítulo sequer. Se essa Natália estiver em algum lugar agora, ela não faz ideia da mãe que perdeu. Foi/é pai, mãe, amiga, anjo-da-guarda, céu, terra, cama, controle-remoto, pouco importava o que precisávamos. Hoje aquelas duas crianças cresceram, saudáveis, muito bem educadas e honestas, graças a ti. Claro, não me tornei muito do que sonhava para mim, mas sigo da mesma maneira que aprendi, com sangue, alma e suor, sem olhar para os lados mas sempre dando umas olhadinhas para trás, saber de onde partimos é o que nos motiva a nunca desistir. Erro, peco, caio, vou aos trancos e barrancos, mas se um dia chegar a seus pés, não precisarei de outras vidas. Talvez não saiba te agradecer da forma que merece, tenho apenas ciência de que não te mereço. Não sei nem se existe alguém no mundo que mereça uma mãe como você. Oro toda noite para que Deus não te leve antes de mostrar-te que posso ser o que sonhou para mim(falo da vida, não da Natália). Hei de lhe dar tanto orgulho e felicidade como nos nove meses de gestação, enquanto ainda Natália. Nunca conseguirei devolver o que deu por mim, mas enquanto viver, dedicarei tudo o que tenho por um sorriso seu, uma sucessão deles. Meu hoje não seria possível se não fosse você, então prometo que seu amanhã não será tão difícil como ontem. 

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11 comentários em “Uma carta que o coração sozinho nunca foi capaz de escrever

  1. Fantástico texto André, conseguiu de uma forma muito profunda e sincera expor seus sentimentos, que sinceramente não são muito diferentes dos sentimentos de muitos por aí. Todos nós temos uma história como a sua. Parabéns.

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  2. Porra velho, que texto, quantas expressões. Apaixonei pelo blog, na verdade já esperava isso de ti. E que saudade de ter vivido a história da “Nathalia” com a minha Regina, saudades que não cabe no peito, ainda mais com o dia de hoje. Vlw mlk, orgulhosa de ti! Cuida dela enquanto puder! Adoro vocês! 😘

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  3. Gostei do texto. Muita sinceridade, coisa rara hoje em dia. Obrigado por existir, cara! E agradeço por você seguir meu blog. Está apenas no começo, tenho ainda muitas poesias e textos para blogar. Não ponho minha foto porque sou velho e feio.

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    1. Poxa vida, irmão. Não sei como agradecer este belíssimo comentário. Se você tiver metade da beleza com que escreve, já é um dos homens mais desejados da cidade. Agradeço também por me seguir e desejo-te muita paz, acima de todas as conquistas que a ti chegarão.

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